Que se Lixe a Tróika, Não os Políticos

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Lembram-se do Movimento Que se Lixe a Tróika!? O que escrevi em 8 de Março de 2013 ainda continua fresco e actual. Na verdade, passaram poucos meses e as coisas não mudaram muito, porque continuamos com a escravatura da dívida, grande parte dela ilegítima, e porque os meios de comunicação próximos dos poderes económico e político continuam a fazer passar a mensagem de que os políticos são todos iguais, pelo que não vale a pena mudar nada, pois mudar é mudar para ficar tudo na mesma. Mas não vamos cair nessa armadilha e vamos continuar a lutar por um país livre, progressista e justo.

Em O Público na rede, era comentado, por essa data, uma declaração do Movimento Que se Lixe a Tróika!, na qual este se demarcava de manifestações que identificavam o político em geral, como se este fosse uma virtude metafísica inerente a cada político, um pouco à maneira aristotélica e medieval, com a perfídia. E fez bem, e muito a tempo.

Por ingenuidade, ou seja, por generalização excessiva, como diria Francis Bacon, por confusão dos mandantes do poder económico, já de si sujeitos às relações de força da dinâmica económica capitalista, com os legisladores políticos, que lhes dão força de lei, do executor com o mensageiro, do fenómeno com a essência e das causas objectivas com as forças mágicas da vontade, ou por aquela maldade que consiste em reforçar as crenças resultantes da ingenuidade dos demais, há quem resvale para posições ideológicas de recorte fascista, à Goebels, Mussolini ou à Salazar.

O Movimento Que se Lixe a Tróika! lembrava muito bem que a “classe” política não é um grupo de pessoas comprometidas entre si mas de pessoas comprometidas com os valores em que acreditam e servem, os quais precisamente não os unem mas os dividem na medida em que exprimem os seus diferentes interesses e as suas diferentes perspectivas quanto ao funcionamento económico e político da sociedade.

Os políticos representam partidos e estes os interesses combinados de classes, grupos sociais, unidos antagonicamente pelas contradições nas relações de produção.

Certos partidos estão ligados à satisfação dos interesses do grande capital comercial, industrial e financeiro internacional a partir de uma estrutura de poder político vigente na União Europeia, em grande medida controlada pelo imperialismo dos Estados Unidos. A força destes interesses é para eles a realidade incontornável à qual não é possível escapar. São adeptos do fatalismo para o qual a realidade é sempre racional, nunca é irracional, pelo que nada nela se pode mudar. É claro que são as grandes forças que, na sua colisão, transformam o mundo, e assim, na verdade, os fatalistas não passam de pequenos paus-mandados dos agentes reais – sempre racionais por constituirem o poder da realidade presente -, como se viu quando Vitor Gaspar, antes de comunicar às instituições políticas portuguesas as suas pseudo-decisões fiscais, deslocou-se ao centro de decisões europeu a fim de “pedir autorização” para promulgar as medidas.

Outros partidos, e os seus políticos, pelo contrário, vêem mais do que o óbvio e denunciam a realidade irracional em que se vive. Não negam a realidade do poder do capital financeiro internacional, a mundialização e a deslocalização industrial que provocou o desinvestimento europeu nas forças produtivas no Sul da Europa, muitas delas desmanteladas – em grande medida também no Norte -, a dependência absurda do consumo na economias do Sul – em grande medida também no Norte – e o esbanjamento de capital em massivas obras de construção civil sem correspondência com as necessidades produtivas e apenas realizadas para satisfazerem a ambição de riqueza de certos grupos sociais intimamente ligados aos partidos do arco da alternância da governação. Tudo isto obrigando ao endividamento dos bancos e empresas privadas, assim como do Estado, que garantia sempre os lucros do grande capital e cobria os seus prejuízos, à custa de novos empréstimos concedidos a juros cada vez mais elevados pelas agências internacionais de financiamento, com fundos europeus e  créditos privados. Para bem dos empresários e dos políticos a eles associados. Mas isso não podia continuar assim para sempre como se estivéssemos no melhor dos mundos possíveis.

O que os partidos de esquerda, e os seus políticos, exigem é o reconhecimento desta irracionalidade que tomou conta do mundo. É criar um movimento internacional, partindo das realidades diferentes em cada país, que obrigue, a partir de um governo apoiado no povo e na força das leis e das instituições, à alteração das relações de poder económico, no sentido de as reorientar para o desenvolvimento social e humano.
As leis, sustentadas na força das instituições viradas para o bem comum, reforçadas pela unidade deste com o governo, podem transformar, num movimento internacional surgido dos compromissos das nações com os seus povos, pela força coerciva dos Estados, as agências financeiras, separadas das necessidades racionais da produção e orientadas para o enriquecimento especulativo, em agências de concentração de capital mas com o objectivo de poupança e de financiamento justo criador de emprego e de bens ligados ao desenvolvimento humano.
É claro que tal desiderato só é possível quando as diversas classes e grupos sociais que não ganham objectivamente com este estado de coisas tomarem consciência de que existe uma alternativa a este ‘status quo’ e que vale a pena mudar o mundo, por mais difícil que seja, desde que o resultado seja preferível àquilo que existe, isto é, superiormente dirigido para o desenvolvimento humano em todas as suas vertentes e para o bem comum. Ora, tal meta é possível através da capacitação para a mudança mediante uma práxis orientada por um conhecimento científico e filosófico objectivos do mundo e sustentada no progresso das forças produtivas, da organização social e da gestão económica. A esquerda (verdadeira) é o progresso, e o progresso é isto.

Eis parte da transcrição do documento do Movimento Que se Lixe a Tróika!:

“O problema da crise actual não decorre apenas deste ou daquele governante em particular, mas sim de modelos de governação e de subordinação aos mercados financeiros”, continuam.

“Descartamos qualquer intervenção nossa em protestos de que esteja ausente uma denúncia internacional da crise actual e dos seus responsáveis sob esse enquadramento mais amplo, antes baseando-se tão-só num processo de criminalização cega da classe política, sem qualquer reflexão ou ponderação, exponenciando um clima de ‘caça às bruxas’ que não podemos aceitar”, lê-se no mesmo documento.

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