Paisagem Natural – Valor Humano

 

Desculpem-me se não digo onde fica. Perdoem-me se nisto não sou democrata. Não, enquanto os homens pensarem a natureza inteira como matéria-prima e a paisagem para cenários de estradas e de hotéis, frequentados por gente boçal, arrogante, preguiçosa, destruidora e insensível, gente poupada a caminhadas, a experiências primordiais e a contemplações consagrantes.
Gosto das cidades formigueiras, cosmopolitas, demúltiplas camadas históricas. O ar das cidades liberta, dizia-se no Renascimento. Mas isso era em comparação com a miséria, a superstição e a opressão fundiária medievais.
O homem precisa da experiência da diversidade. Ele tem que descobrir as suas potencialidades criativas entre as vielas de má-fama e as sofisticadas salas de concerto e de exposições, pelo meio da azáfama produtiva das fábricas e das artérias vivas de pessoas em multidão.
Mas não pode deixar de se reencontrar em momentos de ânsia de vigor selvagem nas torrentes primordiais, nas florestas imaginativas e nas escarpas sibilantes, pelas quais teve de passar o maior tempo da sua História.
O homem não pode deixar morrer o seu passado que ainda vive nas suas veias. É aí que deve voltar sempre que o artifício da civilização lhe pareça excessivo ao ponto de ameaçar fazer desaparecer o contacto físico revigorador com os elementos prístinos, para os quais o seu corpo e a sua argúcia básica foram concebidos e que só no confronto amigável com eles podem voltar a alegrar-se.
Deixem, pois, em paz – sem estradas, sem hotéis, sem minas, sem vivendas, sem empreendimentos turísticos, sem aerogeradores – todos os grandes espaços ainda rudes e sublimes, todos os trilhos ainda percorridos pelos espíritos dos nossos antepassados cuja relação íntima com a Natureza nos aquece ainda as artérias.
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