O Sentido da Vida Sem Religião Nem Metafísica

 


Se me ponho a perguntar sobre o sentido de tudo o que acontece na natureza e na realidade como um todo, é porque tudo o que faço deve ter, de acordo com a minha experiência, para mim e para os outros, um sentido. Portanto, por um efeito de generalização (a explicação do conhecido torna-se princípio de explicação de todo o desconhecido, daquilo que é de experiência menos imediata), imagino que o mundo humano e a minha vida devem ter também um sentido. Talvez se trate de um fenómeno designado por projecção e que pode ser que esteja, como um dos factores, na origem e progresso da religião.
Consiste numa maneira de ver semelhante à noção que Aristóteles tinha dos seres vivos em geral: haveria neles um sentido, uma finalidade, o desenvolvimento duma forma, duma virtude originária, ou, dito por outras palavras, uma forma de desenvolvimento que está presente desde o começo na matéria ou substância confusa, tal como – por uma analogia que a nossa experiência humana se obstina a transformar-se em explicação de tudo – a forma pré-concebida pelo oleiro dá a figura ao barro.
O sentido da vida está, pois, desde há milénios associada a concepções finalistas da realidade humana e da natureza em geral.
Será devido a estas experiências que se torna possível questionar: a vida tem algum sentido? Se tem, qual é? Mas também se pode perguntar se faz sentido perguntar pelo sentido da vida.
Uma concepção mecanicista, naturalista, da realidade e do homem não vê significado na questão porque para ela tudo o que acontece é um efeito duma composição de causas anteriores e, portanto, não se pode dizer que alguma coisa tenha o poder por si mesma, em virtude duma finalidade que a constitui à partida e independentemente de mundo que a envolve, de se tornar aquilo em que efectivamente acabou por se tornar. O mesmo se aplica à realidade inteira: o estado do universo não se encontra, segundo esta concepção, predeterminado por ele próprio desde o início. Tudo o que existe será, com efeito, o resultado de uma combinação, se não completamente fortuita, pelo menos externa, entre factores, entre fenómenos independentes, combinação que, portanto, não tem qualquer intenção – subentendendo esta uma consciência, uma espiritualidade, interior à matéria, análoga à vontade consciente humana – de produzir como resultado o que quer que seja.
Mas para os que concebem, pelo menos, a sociedade humana e o homem como constituindo um domínio ou um nível de realidade qualitativamente distinto da natureza inorgânica e mesmo orgânica, já pode haver um significado para o “sentido da vida”. Desde que este seja entendido em termos mais restritos, apropriado apenas para as actividades humanas, e desde também que não seja confundido com uma espécie de destino pré-traçado.
É que este é o domínio dos homens, e estes agem com propósitos, imaginam e projectam intelectualmente a realização de actividades, de tecnologias e de organizações futuras. Os homens podem por isso, conceber que têm a capacidade, que lhes é própria e exclusiva, de idealizar um mundo futuro ou, pelo menos, realidades futuras que tentarão levar a cabo. Os seres humanos são dotados da faculdade de iniciar acções orientadas pelos fins que se dão a si mesmos.
As acções humanas têm portanto, fins, ou seja, um sentido.
Mas deve notar-se que o sentido que os homens dão à sua vida, ou procuram para ela, não se resume à concepção de novas realidades nas quais e através das quais vão viver. O que complica o significado do sentido da vida é o facto de que as pessoas lhe associam também a dimensão do valor: para que vale o que me proponho fazer? Quererá isto significar que o indivíduo e os grupos sociais em que eles estão integrados são capazes de se distanciar conscientemente das suas actividades, reflectir sobre elas a um segundo nível, ao da relação daquelas actividades com o que eu próprio valho e com o que vale a humanidade. É um plano mais elevado no qual o homem se questiona acerca do valor das coisas e das suas acções em comparação com o que ele mesmo vale.
Ora, talvez o homem só possa pôr-se esta questão do sentido da vida porque se foi testando ao longo da História nas suas capacidades, sociais, técnicas, intelectuais, morais, estéticas, religiosas e filosóficas. É um ser que, devido à sua evolução e desenvolvimento social, se tem, por força de um certo número de necessidades, que se reinventar. É, pois, um ser constantemente insatisfeito e com a noção de estar sempre incompleto, irrealizado. O seu futuro está sempre em aberto, o homem tendo consciência de poder escolher um futuro que não se encontra predefinido. O seu ser não corresponde ao que considera dever ser. O que é real não consiste para ele necessariamente no que é racional. A sua existência não se identifica com o valor que se dá a si mesmo ou que julga poder dar-se a si mesmo.
O sentido da vida não será, portanto, um constante questionar-se do homem quanto ao que vale e ao que deve ser?

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