Saramago e o Comunismo – Um Texto de 2010 Reencontrado para Um Homem Sempre Actual

 

 
Uma resposta a um comentário a um meu artigo lido num blogue no qual se escrevia, como em muitos textos se pode ler, que nunca se viu um comunista escusar-se de ser um proprietário e de receber mordomias. Mais coisas tem esse comentário, mas apenas o utilizo como pretexto para tentar dissipar alguns equívocos generalizados. E, assim como o comentário expressa apenas ideias espalhadas e sem proprietário original, a minha resposta nem é tanto ao comentário em si quanto a tais opiniões próprias da Vulgata anti-comunista. Daí poder-se julgar não ser relevante indicar o autor desse texto. Não o creio. Por respeito pela autora, e pelo facto de o seu comentário ser público e assinado, digo ter sido postado por Carla Simões em 19 de Junho de 2010 no excelente e modelar Blogue Delito de Opinião do escritor e jornalista Pedro Correia, no qual aliás já está esta minha mesma resposta.
Tudo isto vem aliás a propósito das convicções políticas de Saramago e do seu reconhecimento de que a práxis comunista falhou, tendo acrescentado todavia que, se a sua realização não se concretizou no século XX, o ideal fica para que, em novas condições e melhor pensado, seja cumprido. Eis, pois, a minha resposta, decerto não muito aprofundada e muito pouco teórica, pelo que remeto para as obras fundamentais do marxismo, assim como para os seus mais presentes continuadores.
Em primeiro lugar, é preciso distinguir a pessoa e as suas ideias, que muitas vezes (nunca, arriscaria eu) não se confundem. 
O homem é o sujeito e a sua circunstância, no qual as duas instâncias se interpenetram e se degladiam. As circunstâncias específicas duma época obrigam o homem a agir em conformidade com elas para salvaguardar a sua própria pessoa e os seus próximos. Eu, marxista que sou, nunca abdicaria da minha propriedade privada, dos meus rendimentos, na medida em que preciso de sobreviver e de viver dignamente numa sociedade que me impõe este tipo de existência (o livre-arbítrio é uma ilusão), embora o ideário marxista nada tenha contra a propriedade individual em si mesma.
Se eu acredito, em virtude da minha experiência de vida e das leituras cuidadosamente estruturadas que tenho feito, na possibilidade duma sociedade comunista (a muito longo prazo, admito, por força da realidade), na qual as pessoas guardarão a sua propriedade pessoal, como expressão física essencial do seu ser, é porque a ideia de comunismo não admite apenas a propriedade privada dos meios de produção de bens socialmente necessários, e nada mais. E isso porque ela consiste numa privação da propriedade dos outros sobre eles, que estão cativos do direito duma minoria, criando assim muitas injustiças na distribuição e irracionalidades concorrenciais, além de formas de alienação financeira da actividade produtiva, como temos estada a verificar uma vez mais.
Mas, dado que vivo numa sociedade capitalista, muitas das actividades que posso realizar têm que ser realizadas a título de propriedade privada dos meios para tal. Não é a vontade de cada um que, por si mesma, muda o modo de produção social.
São antes as condições tecnológicas e sociais da produção que criam as condições para o transformarem, e os ideais surgem então como uma orientação teórica da prática para que tais possibilidades existentes se convertam em realidades efectivas. É isto o sentido da práxis comunista.
E José Saramago, com a sua obra literária, nada mais fez – e isso já foi imenso – do que elevar mais um degrau na tomada de consciência da necessidade e na possibilidade de realização de tal ideal igualitário. 
Mas, como de novo fez notar Saramago, o homem é um misto de ideais e de circunstâncias, de altruísmo e de egoísmo. O homem é um homem do seu tempo. 
E é nesta tomada de consciência para a qual contribuiu Saramago que nos devemos apoiar para sermos cada vez melhores, mais coerentes com os nossos ideais, e para sermos cada vez mais humanos, para que os próprios nossos ideais compreendam em si, não uma ordem arbitrária, mas aquilo que somos, podemos e desejamos vir a ser.
E para que saibam a que irracionalidade pode levar o ódio aos ideais comunistas, que por certo não é apenas desgosto pelos crimes cometidos em seu nome (muito haveria aliás a falar sobre isto), eis aqui uma pérola de prosa retirada de um comentário ao falecimento de Saramago no MSN, que se pode ler ainda em 21 de Junho de 2010:
«Este “ser – amargo” deveria ficar em Espanha ao lado de Franco ou dos republicanistas comunistas. Lixo como as cinzas dele não fazem falta na pátria de Viriato. Mais um imbecil com a mania que sabia escrever. Um iluminado que fugiu do verdadeiro trabalho para andar limpo e de fatinho… Um traidor que deveria ter sido fuzilado por aquilo que propunha em Espanha sobre a nossa lusa pátria. Um ser patético que deu o golpe do baú numa pseudo escritora/jornalista espanhola – um chibo com chifres… Um ser infame que deixou morrer à fome uma das suas mulheres, quando era apenas um mero mercenário do PCP e engraxava motores numa oficina qualquer. Um bandido sem qualquer pejo em despedir homens de família quando se instalou a insanidade no Jornal de Notícias em 1975. Um hipócrita que foi levado ao colo pelo PC e demais acólitos para ganhar um prémio Nobel. Nunca lhe disseram que não sabia escrever, nem pensar! Esse maníaco da prepotência e do absurdo! Já devia ter desaparecido do nosso mapa. Não faz falta nenhuma.»
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