Arte Filosofia Ciência – Digressões I

 

arte é uma actividade prática, um género de transformação do mundo pelo ser humano, representando vários aspectos e funções de ordem psicológica, moral e social, de que os agentes e os receptores possuem mais ou menos consciência.
Há muito tempo que as metodologias e dados científicos apontam para o facto de se ter de prescindir de uma vez por todas da tentação de se pisar e repisar o tema metafísico doBelo, argumentando e contra-argumentando especulativamente acerca da sua transcendência ou não, da sua naturalidade ou não, de ser ou não de instânciatranscendental ou um mero nome conveniente para significar, com grande dose de arbitrariedade cultural ou idiossincrática, uma classe de estados mentais que ocorreriam na presença de certos estímulos.[1] Parece, na actualidade, absurdo – fora da inércia do círculo filosófico académico, que assim pretende justificar a rotina de escrever sobre o que se escreveu a propósito das meditações de um grande metafísico e das suas célebres disputas com outros, tratado de acordo com a reverência prestada às “vacas sagradas” –, reflectir sobre a significação do termo Belo abstraindo-se dos, ou qualificando ‘a priori’, os objectos pertencentes à História da Arte, e desdenhando das observações e experimentos feitos ou a fazer, sob a proposta de hipóteses teóricas controladas, a respeito dos fenómenos que diversas teorias, provisórias como todas, caracterizam como belos ou com qualquer outra designação menos conotada com a metafísica.
Tal como a arte é uma actividade prática que, portanto, só se forma, se justifica e se comprova no seu valor pela prática, também qualquer declaração verbal obedece ao mesmo critério. O pensamento objectivo acerca de toda a actividade prática, inserido no processo global da existência humana social, reflecte a actividade prática objectiva. A não ser assim, o pensamento nada mais é do que projecção ideológica: apenas “medita”, encerra-se no círculo de si-mesmo com as suas ideias feitas, ficando voluntariamente, por ressentimento[2] ou por auto-fascínio,[3] de fora da realidade. ‘A fortiori’, esta tese materialista implica que o pensamento objectivo é um elemento reflexivo da actividade prática, orientando o e orientado pelo executar objectivamente efectivo.
Muito depois de Leonardo, Galileu e Vico,[4] Marx reforçou e aprofundou – na esfera “filosófica”, posto que nas ciências naturais há bastante acontecia – esse princípio básico do conhecimento objectivo, cunhando-o na 2ª Tese sobre Feuerbach:
«A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão de teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não-realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica[5]
Marx rematou-a com a diversamente traduzida e tão mal compreendida, por descontextualizada, 11ª Tese:
«Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; o que importa depois disso [«es kömmt drauf an»] é transformá-lo[6]

[1] Esta tese, nominalista, entre as designadas, é a única cautelosa e a que se presta a um ponto de partida para a investigação estética.
[2] Cf. Nietzsche.
[3] Cf. Feuerbach, Marx, Freud.
[4] É dele a frase «verum est ipso factum» (“o verdadeiro e o feito são o mesmo”).
[5] MARX, K., Thesen über Feuerbach (1845), in MARX ENGELS Ausgewählt Werke, Band I, Dietz Verlag, Berlin, 1987 p. 196.
[6] Idem, Op. Cit., p. 200.
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