Desidério Murcho e o Inglês como Latim Académico dos Nossos Dias

 

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Acerca duma diatribe do filósofo analítico Desidério Murcho contra a língua portuguesa (não é culta) e contra a redacção de dissertações e artigos académicos na nossa língua mater.
E não será este novo Latim, esta nova língua universal, uma nova endogamia à semelhança da língua do império romano, que criou na Europa, como uma sequela que durou centenas de anos, uma elite de letrados a produzir uma cultura concentralizadora e uniforme? É claro, a cultura britânica e americana são extremamente diversificadas mas a verdade é que o propósito ideológico dos mentores da anglofilia é a concentralização da actividade científica no modelo de investigação positivista, metodológico, desenvolvido na terra do tio Sam e investido pelos grandes mecenas de produir conhecimento de mera operacionalidade, além de filosófica e politicamente formal-burguês e agnóstico.
Não foi a competição vernácula com o Latim iniciada no Renascimento (Rabelais e outros) e a abertura ao estudo de línguas como o Grego, que prodigalizou a maravilhosa diversificação imprevisível (para quem nela participou) e criativa que todos conhecemos? Teremos todos de nos tornar satélites dos Estados Unidos a produzir segundo o seu suposto modelo (positivista, mas que nem sequer detém lá o monopólio universitário) e o seu Inglês, ignorando a riqueza específica de cada língua?
Uma língua não é um mero veículo de transmissão de conhecimento. É uma obra-de-arte, uma construção única, sistemática e aberta, portadora de estilos próprios de elaborar conceitos e frases declarativas ou pragmáticas, que não se reduzem a enunciados protocolares e a termos rigorosamente traduzíveis (tradutore traditore), pois reenviam à sua história, às camadas de sentido nela constituídas. É insubstituível. Só um filósofo analítico poderia pretender criar uma linguagem universal, eliminando a necessidade de reconfigurar a estrutura das frases e recontextualizar o sentido das palavras para não fazer traição ao significado do que é traduzido. Mas o Círculo de Viena ficou reduzido a uma tautologia.
A própria ciência, que requer a comunicação de proposições unívocas, inequívocas (precisando para isso de criar neologismos, à medida que o conhecimento objectivo se vai instalando e desenvolvendo numa língua viva, com frequência a partir do Grego antigo, e do Latim, precisamente para não contaminar o saber com indesejáveis polissemiase mutações que as produzem), afirma-se em todas as línguas cultas, como é a portuguesa, para quem lê Camões, Mário Dionísio, Bento de Jesus Caraça, Simões da Fonseca, Carlos Almaça e muitos outros (independentemente da sua grandeza relativa) nas suas respectivas áreas.
Seria aliás desejável escrever uma dissertação honesta e fundamentada sobre aspectos linguísticos do português ou sobre a estrutura narrativa dos Maias em Inglês (isto é, sem citar a obra em português e sem explicar, explicitar e exemplificar a sua idiossincrasia sintáctica e as suas expressões idiomáticas)?! Teremos de escrever em Inglês sobre temas do português? Não será um desrespeito ao património científico nacional (mas o que é isso de desrespeito à nossa identidade, perguntarão incrédulos os fanáticos do cosmopolitismo cego, unilateral?) produzir directamente em Inglês um artigo acerca da descoberta de uma nova espécie vegetal, digamos no Gerês, sem o facultar em primeira mão na pátria de Fernando Pessoa? Realizar na língua do tio Sam uma investigação acerca do desastre industrial económico da Marinha Grande a partir dos anos oitenta, quando os primeiros interessados no assunto são os portugueses? E para quê redigir originalmente uma tese em matemática nessa língua, no nosso país, quando a matemática é um código universal?
Não seria tudo isto empobrecer o nosso património científico?
Além disso, queremos um mundo policentrado, não enfeudado à América, que não vai ser para sempre a única superpotência, situação que já se vislumbra num horizonte próximo. Também o Vaticano e o seu Latim pareciam de pedra. Mas a fluidez da água é mais duradoura.
Qualquer texto de investigação feito em Portugal por portugueses deve poder redigir-se na língua vernácula sem penalização provinciana, e só depois, para efeitos de internacionalização, traduzido, não apenas, não sempre nem necessariamente em Inglês (dou de barato que é o Latim do mundo actual e concordo tratar-se duma língua riquíssima e criativa, sobretudo no que respeita à semântica) mas também em Francês, Alemão, Japonês, Chinês, Castelhano, Russo, ou outra, em função do interesse e da especificidade da própria investigação.
É, em todo o caso, preferível um português escrever, não em Inglês, mas em Francês um ensaio sobreDiderot. Que raio!, os franceses estariam mais interessados nele!
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