A Informática do Ensino Desde Há uns Governos para Cá

maquina-escolar

Vamos imaginar uma eventual colega (a maioria dos professores são do género feminino) – de Português, História, o que queiram. Vamos supor que ela elogia tudo o que é informatização, mesmo a despropósito, pedagogica e organizacionalmente falado, elogia tudo o que lá – nos operativos informáticos – está sendo introduzido – desde os sumários electrónicos às aulas de Power Point e quadros electrónicos que hão-de cativar os alunos para o conhecimento e para a paixão pela Ode Marítima de Fernando Pessoa ou para os muito actuais diálogos entre Sócrates e Crátilo – com o fanatismo daqueles que conseguiram quebrar a sua própria razão em proveito duma metafísica de salvação – profissional e política – na figura sagrada do antigo Simplex e do actual Complex, promovidos pelos ministros da educação dos últimos governos.

 

Vamos supor que essa professora não se coibe sequer de alardear ter deixado de ler livros porque a Net que oferece tudo, e de andar resumida na Wikipédia para não perder tempo, para andar à velocidade das estradas da informação. 
E entende-se que tente fazer vingar a sua luta pela imposição de critérios de avaliação que tenham em conta a planificação lectiva que contemple o uso constante nas aulas da Net, de Quadros Interactivos e de Power Point – mesmo que inapropriado à luz de outros critérios não falsificados, não demonstrados errados, avançados pelo professor. Não é preciso dizer mais: acontece normalmente com os recém-convertidos.

Vamos imaginar uma professora – de Português, História, o que queiram – que é mesmo capaz de chegar ao ponto de chamar de anacrónicos, avessos à mudança e boicotadores todos aqueles que não vêm vantagens no uso sistemático – que não ocasional e pertinente – de meios informáticos nas aulas, e que nomeadamente ainda praticam assiduamente o diálogo socrático no seu estado puro como forma de motivação e não só.

Falo dessa prática de debate, tão antigo mas tão actual, método fecundíssimo no desenvolver das capacidades argumentativas, cognitivas e afectivas, na espontaneidade da comunicação directa sujeito com sujeito sem mediação de máquinas.

Note-se que não venho aqui para as ostracizar, às máquinas, que são úteis, elas-mesmas, no figurar e chamar a atenção para noções, fórmulas, relações e processos que a compreensão da matéria exige.

Não é, pois, que eu esteja contra a introdução de novos instrumentos de ensino-aprendizagem: a minha revolta é contra o fundamentalismo dos gurus da mais recente mézinha.

Ora, essa maiêutica, essa arte de fazer vir à luz a necessidade e a possibilidade de aventar teses, de as defender da contra-argumentação do oponente de boa-fé, e de reconhecer mutuamente os limites dos pontos-de-vista dos dialogantes, como resultado desse confronto, parece desactualizada diante do pronto-a-pensar duma aula que segue os tópicos, os conceitos, as ligações, os esquemas das imagens sequenciais prépreparadas do Power Point e quejandos.

Não terão elas de ser obrigatoriamente assim, mas prestam-se, pelo facilitismo a que induzem, à esquematização, normalização e à atitude acrítica e automática do ensinar, assim como à formatação dos métodos de aprender.

Seria preciso lembrar que cada professor não é apenas alguém que ensina, motiva e promove a capacidade de aprendizagem autónoma, além de facilitar a compreensão dos conteúdos num jogo de ilustrações e de exercícios, entre os quais os simples servem sobretudo para elevar o discente a conhecimentos mais complexos, mais abstractos, menos esquematizáveis e dificilmente visualizáveis nos quadros electrónicos e no Power Point?

O professor é igualmente uma personalidade própria, com um estilo inimitável de leccionação duma área do saber que também não cabe num modelo informático – por certo haverá aqui de novo a tentação do admirável mundo único -, o qual, servindo a todas as disciplinas, por isso mesmo empobrece a diversidade de cada uma delas e a própria capacidade, originalidade e força de expressão, não só dos docentes como, é preciso lembrar, dos próprios discentes.

O Professor José Sebastião e Silva, grande matemático português, escreveu um dia (pena é que já não possa ser ouvido nem seja lido): «A ciência socrática, tal como a platónica, tem sobretudo carácter normativo, mas o método socrático pode extender-se também com êxito às ciências na natureza. Aparece então uma terceira forma de diálogo, o diálogo com a natureza.»

O grande Professor sabia do que falava: é na multiplicidade e diversidade das actividades educativas, adequadas à aprendizagem das matérias distintas e à promoção da autonomia de investigação e de vida do aluno, que se deve enquadrar todo o recém-chegado utensílo didáctico. É o imperativo destas necessidades e não a força dos interesses económicos e profissionais que deve contar na sua aplicação não forçada. Senão corremos o risco de induzir uma cultura cada vez mais visual, nocional e esquemática sem a componente imprescindível da compreensão e criação ao nível dos processos mentais conceptuais abstractos.

Quanto à colega – tanto virtual quanto omnipresente em todas as escolas – sugiro que não se imponha como se fosse a verdade absoluta, que mude mais de roupa que de ideias de moda e que, se é pelo progresso e pela democracia no ensino, como alardeiam todas as que são como ela, respeite a diversidade pedagógica.

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