Afeganistão: Antes dos Talibãs e dos Estado-Unidenses – Depois Deles

 

Mesmo antes (pelo menos um ano antes) do golpe que derrubou a monarquia e pôs no poder um governo mais ou menos republicano, encabeçado pelo próprio primeiro-ministo do anterior regime monárquico, Daud, e sob a influência de costumes e valores ocidentais, as mulheres gozavam de alguns direitos, como se pode ver pela imagem mais acima. Daud não foi capaz de se libertar da estrutura tradicional do poder no Afeganistão e, depois de alguma peripécias sangrentas, foi deposto por Babrak Karmal, menos próximo da  da URSS do que se pensa. É que o próprio Karmal foi deposto por causa da sua aproximação posterior aos mulahs (chefes religiosos islâmicos) e da instauração por si da Sharia ou lei islâmica mais primitiva. A deposição de Karmal levou ao poder outros personagens, entre os quais Najibullah, mais afim da ideologia marxista, e  foi executada com o apoio da URSS, que acabou por intervir militarmente para defender o novo regime. 

Karmal, como escreveu muito francamente a revista direitista brasileira Veja, era um “títere da União Soviética, que, para garantir a nova ordem, invadiu o Afeganistão trazendo consigo o “pacote marxista” completo: luta de classes, reforma social, emancipação da mulher, e assim por diante. Um ano depois, porém, já apelava a Alá, tentando cooptar os mulás. Até a sharia, a forma mais primitiva de aplicação dos preceitos muçulmanos, foi incorporada. A confusão foi tanta que, naquele mesmo ano, a União Soviética resolveu intervir diretamente.”

Depois disto é o que se sabe (ou muito mal se sabe): os talibãs armados pelos estado-unidenses e a retirada da malvada da liberdade às mulheres. 

A propósito: lembram-se do 11 de Setembro?

 

 

Cito um Artigo de um jornalista português:

 

Por Carlos Santos Pereira, da Agência Lusa

 

“Lisboa, 30 dez (Lusa) – Revelações dos arquivos da guerra fria e as próprias questões levantadas pelo atual impasse no Afeganistão estão forçando uma revisão das condições e do alcance da intervenção soviética no país nos anos 80.

 

As tropas soviéticas entraram no Afeganistão em 24 de dezembro de 1979, em uma ação denunciada pela Administração de Jimmy Carter, nos Estados Unidos, como “a maior ameaça à paz desde a Segunda Guerra” e uma manifestação intolerável do expansionismo soviético.

 

A intervenção soviética originou uma forte reação do Ocidente, precipitando o fim da détente e uma fase de grande tensão nas relações Leste-Oeste que levaria à “segunda guerra fria”, da era Ronald Reagan.

 

Nove anos mais tarde, em 15 de fevereiro de 1989, o exército Vermelho deixou o Afeganistão, derrotado e humilhado, com 13 mil baixas no terreno.

 

Esta é, de maneira geral, a versão consagrada nas memórias políticas e midiáticas. Testemunhos recentes e a abertura dos arquivos da guerra fria estão, no entanto, dando uma visão menos linear da intervenção soviética no Afeganistão.

 

No entanto, atualmente se sabe que o Kremlin resistiu durante meses aos sucessivos apelos lançados pelas autoridades comunistas afegãs ao longo de 1979, pedindo apoio militar para conter a insurreição lançada pelos mujahidins um ano antes. 

 

A decisão de intervir teria sido motivada não por ambições sobre os mares quentes do Sul ou o petróleo do Golfo, e sim por receios sobre a força de um aliado de grande importância estratégica para o flanco Sul da União Soviética.

 

CIA e guerrilha islâmica

 

Em autobiografia publicada em 1996 (“From the Shadows”), o atual secretário norte-americano da Defesa, Robert Gates, revela que a CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos) começou a financiar e armar a guerrilha islâmica meses antes da intervenção soviética. 

 

Zbigniew Brzezinski, na época secretário de Estado de Jimmy Carter, reconheceu recentemente que o apoio fazia parte de uma “armadilha” para arrastar os soviéticos para o Afeganistão, onde teriam “o seu Vietnã”.

 

Os alertas do KGB e o alarme da direção soviética sobre o que viam como uma ação crescente dos norte-americanos no Afeganistão foram intensificados pela progressiva deterioração das relações com os EUA no final dos anos 70, mas muitos analistas tendem a avaliar a intervenção soviética mais como um reflexo defensivo do que como uma manobra expansionista.

 

Já a retirada soviética, nove anos depois, foi mais do que de um colapso militar iminente e se configurou como um processo político marcado pela Perestroika e pelas mudanças na política externa introduzidas por Mikhail Gorbachev.

 

Na verdade, a situação no Afeganistão nas vésperas de decisão russa de deixar o país era mais de impasse militar e político do que uma derrota militar pura e simples. Apesar das baixas sofridas, o Exército Vermelho ainda conseguia controlar os centros urbanos e as vias de comunicação e mantinha a pressão sobre as bases mujahidins.

 

Por outro lado, os militares no terreno nunca foram suficientes para garantir o controle das áreas retiradas do domínio dos insurgentes. Um problema que, preservadas as distâncias, também é registrado atualmente pelas forças dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão.”

 

Um artigo de uma revista brasileira insuspeita (Veja), declaradamente pró Estado-Unidense faz, por sua vez, o retrato cronológico da invasão soviética desta maneira:


O fim da monarquia – Habibullah Kalakani sucedeu Amanollah no trono afegão, mas acabou executado em menos de um ano, quando uma assembléia formada pelas tribos locais escolheu Mohamed Nader Shah como o novo líder. Um dos quatro filhos de Mohamed Nader era Zahir, que herdou o trono, depois que o pai também foi assassinado, em 1933. Originário da etnia patane, Zahir tinha então pouco mais de 19 anos, havia estudado na França e ocupado um cargo honorífico no Afeganistão. Embora inexperiente, conseguiu manter-se no trono por quatro décadas. Foi o mais longo reinado da história moderna do país. Zahir na verdade não mandava nada. Era uma espécie de rei-fantoche. O poder era exercido de fato por alguns de seus parentes. Um deles, o primo e cunhado Mohamed Daud Khan, primeiro-ministro, foi o responsável pelo golpe que derrubou a monarquia e instaurou uma república em 1973, aproveitando-se do fato de Zahir estar fora do país, numa estação de termas na ilha de Ischia, próximo a Nápoles. Para substituir o rei deposto, Daud Khan nomeou-se a si próprio presidente da república.

Sob a influência soviética – Em 1978, teve início um extraordinário período de instabilidade no Afeganistão. Em dois anos, três presidentes foram derrubados e assassinados. Daud Khan foi o primeiro, massacrado com quase toda a família num golpe de esquerda. Entre setembro e dezembro de 1979, mais dois foram mortos. O último golpe colocou no poder Babrak Karmal, títere da União Soviética, que, para garantir a nova ordem, invadiu o Afeganistão trazendo consigo o “pacote marxista” completo: luta de classes, reforma social, emancipação da mulher, e assim por diante. Um ano depois, porém, já apelava a Alá, tentando cooptar os mulás. Até a sharia, a forma mais primitiva de aplicação dos preceitos muçulmanos, foi incorporada. A confusão foi tanta que, naquele mesmo ano, a União Soviética resolveu intervir diretamente.

EUA x URSS – Assim que teve início a invasão do Afeganistão pela URSS, o mundo foi apresentado aos mujahidin, combatentes muçulmanos entrincheirados nas cavernas do país dispostos a resistir à incursão do gigante comunista. Em meio à disputa da Guerra Fria, depois de serem ignorados por anos a fio, eles acabaram recebendo ajuda militar e financeira dos Estados Unidos. Boa parte do esforço americano foi destinada a entregar aos combatentes afegãos centenas de lançadores de mísseis Stinger, uma arma portátil, precisa e mortal. Guiados pelo calor das turbinas dos helicópteros russos, os mísseis raramente erravam seus alvos. A combinação da combatividade rústica dos mujahidin com a precisão tecnológica dos mísseis derrotou militarmente os soviéticos. Eles se retiraram do Afeganistão em 1989. O presidente Najibullah, que era um aliado da URSS, ainda tentou resistir por três anos, até fugir em 1992. O país então mergulhou numa devastadora guerra civil movida por brigas entre facções muçulmanas.

Talibã – As disputas internas que se seguiram à saída da União Soviética culminaram, em 1996, na conquista de Cabul e de boa parte do país pelo Talibã, uma milícia fundamentalista nascida em seminários islâmicos. Ao chegar ao poder, a força guerrilheira transformou o cotidiano do país. As mulheres foram obrigadas a sair à rua cobertas dos pés à cabeça e foram impedidas de frequentar escolas ou trabalhar. A televisão, a música, os cinemas, as discotecas e as bebidas alcoólicas foram banidos. Um órgão foi criado para que nenhuma das novas regras fossem descumpridas, o Ministério da Propagação da Virtude e do Combate ao Vício. A sharia, o severo código legal muçulmano que determina, por exemplo, que os pés e as mãos de ladrões sejam amputados e os adúlteros e traficantes de drogas sejam apedrejados em praça pública, também voltou a ser exercida com rigor. Na época, o grupo radical islâmico chegou a dominar 70% do território afegão, mas, ainda assim, enfrentava a resistência de tropas do ex-presidente Burhanuddin Rabbani e da comunidade internacional.”

 

Não digo nada. Cada qual que tente pensar pela sua própria cabeça.

 

 
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