Uma Nota Sobre um Estudo Acerca da Sexualidade das Mulheres em Portugal

 
 
Li um artigo jornalístico resumindo os resultados de uma investigação sobre a sexualidade feminina em Portugal. Estes estudos (ou os seus resumos jornalísticos) intrigam-me pela sua pobreza científica e metodológica. Parecem reduzir a investigação a uma análise categorial dos resultados estatísticos, sem procurarem explicar esses dados e as categorias nas quais os compreendem como efeitos de uma totalidade complexa de relações e condições sociais, que se repercutem em valores ou escolhas, mais ou menos determinadas, e estados afectivos, morais e estéticos.
 
 
Em O Público de hoje vejo escrito: 
A disfunção sexual feminina, explica a autora do estudo, está relacionada com “uma alteração em qualquer uma das fases do ciclo de resposta sexual (o desejo, a excitação e o orgasmo)” ou com “perturbações dolorosas associadas ao acto sexual” .Mas além de metade das mulheres que sofrem de disfunção sexual não verem isso como um problema, as restantes “tendem a desvalorizar os sintomas”, diz Bárbara Ribeiro. Isto porque “muitas delas ainda não encaram uma vida sexual plena como parte integrante da sua satisfação pessoal” e atribuem mais valor a outros factores como a vida familiar. Noutros casos isso deve-se também a “desconhecimento da respectiva sexualidade”.”
A autora sublinha, porém, que é importante ter em conta a opinião de cada mulher e que a disfunção sexual feminina pode não ser de facto um problema desde que não afecte a qualidade de vida.” 
 
Penso que a segunda hipótese de um dos comentadores desta notícia (os homens são incompetentes) tem alguma razão de ser (mas algumas mulheres também não se ficam atrás). Só tenho tempo, enfim, para repetir e enfatizar que estes estudos – e estes comentários – sofrem de falta de contextualização: não se pode pensar na sexualidade fora dos contextos sociais, culturais, económicos e individuais. 
E não basta dizer que as mulheres atribuem mais importância à vida familiar (como se da vida familiar não fizesse parte a sexualidade, bem vivida ou mal vivida). Ou manifestar uma atitude de tolerância bem comportada e eticamente correcta ao afirmar que a disfunção sexual pode não ser um problema. Seria caso para perguntar se a disfunção motora ou auditiva podem não ser um problema. É claro que se pode viver com elas, e desenvolver técnicas para limitar os aspectos negativos das disfunções, mas elas não deixam de ser constrangedoras. 
Todavia, o que escapa mais aos autores é que o contexto total da existência de cada um não apenas influencia, como um factor externo, a vida sexual como a determina de dentro do seu desenvolvimento. É a análise das estruturas e processos sociais e a sua vivência íntima que não são tidos devidamente em conta. É mostrar que a sociedade tal como está estruturada constitui a causa profunda das inibições sexuais. Pensamento dialéctico, por favor, embora seja muito difícil, dada a ultra-especialização redutora dos cientistas. 
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