Arte Erótica e a Polícia Armada aos Costumes – Uma História Não Muito Antiga

 

O corpo não é natural desde A Origem do Mundo. Ficamos incomodados com a imagem de nós próprios e fazemos dela o corpo do delito. O fruto proibido é…
Acabei de reler uma notícia com quatro anos e ainda me divirto com ela:
Notícia do Google Notícias (24-02-2009, dia de Carnaval):
A PSP de Braga apreendeu cinco exemplares de um livro que reproduz na capa uma pintura de GustaveCourbet mostrando o sexo de uma mulher, «não por censura mas para evitar desacatos», disse fonte policial.
O segundo comandante da PSP, subintendente Henriques Almeida, adiantou à Lusa que a exposição dos livros estava a atrair a curiosidade das crianças que brincavam na zona – uma área pedonal no centro da cidade – cujos pais se mostravam incomodados com o facto.
As crianças, que ali brincam em grande número, terão visto o livro e começado a chamar outras para irem ver a pintura, o que levou as mães e os pais a chamar a PSP, acentuou.
«Havia possibilidade de haver discussões e mesmo desacatos entre os livreiros e os pais das crianças», afirmou, frisando que vários cidadãos se dirigiram ao piquete da polícia que se encontra «de guarda» ao Banco de Portugal queixando-se e ameaçando «tomar medidas».
Henriques Almeida diz que, pessoalmente, «não considera a reprodução do quadro como pornográfica», garantindo que não foi «censória» a intenção da acção policial.
«Decidimos agir»
«Se não tivéssemos agido e houvesse desacatos, éramos criticados¿ Assim, decidimos agir preventivamente», sublinhou.
O responsável policial garantiu que o caso será enviado, de seguida, para o Tribunal a quem competirá a decisão sobre uma eventual devolução dos livros: «Faremos o que o Tribunal disser», garantiu, frisando que, «se houver motivo para algum reparo a fazer aos agentes que actuaram, ele será feito».
O livreiro garante que o auto de apreensão considera o conteúdo da imagem como «pornográfico» e anunciou, hoje, que vai recorrer aos tribunais.
António Lopes adiantou que vai, também, enviar exposições ao Presidente da Republica, e aos grupos parlamentares da Assembleia da Republica: «Sei que a PSP não recebeu ordens do ministério da Cultura, mas a verdade é que se sentem, actualmente, à vontade para o fazer», afirmou.
Para o empresário, deve ter sido «a primeira vez que um livro foi apreendido depois do 25 de Abril».
O empresário é um dos sócios da distribuidora Inovação à Leitura, de Braga, que organizou a Feira do Livro em Saldo e Últimas Edições, que está a decorrer, até ao dia 8 de Março, na Praça da República – vulgo Arcada – no centro de Braga.
Segundo os especialistas, Gustave Courbet era já um pintor «conhecido em França pela sua destreza técnica mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade burguesa, que não perdia ocasião de afrontar».
Courbet, um socialista convicto, ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, com o quadro A Origem do Mundo abalou profundamente o meio artístico, tendo a sua exposição pública sido proibida na época.
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