Tambor. Da Crise Militar à Financeira

Konrad Dannenberg designed the multiple mixing...

Konrad Dannenberg designed the multiple mixing nozzles in the sample shown. This is one of 18 units that was part of a rocket engine combusion chamber. (Photo credit: Wikipedia)
Tambor um, pífaro o outro (ou, se calhar como forma menos alterada, tambor um, caixa de rufo o outro)ou aquela coisa que fala dos telhados de vidro. É… No fundo, são os interesses competitivos e mesquinhos a, outra vez, serem-nos trazidos por lobos vestidos com peles de cordeiro, no lugar dos valores da vida, da solidariedade e da coerência justa.
Como que não por acaso, foi-me parar às mãos a edição da revista Visão do passado dia 19 de Fevereiro, a qual traz na rubrica “Obituário” habitual o seguinte texto:
«KONRAD DANNENBERG (1912-2009)
O semiglorioso maluco dos foguetões
Nasceu e foi criança na Alemanha do Kaiser, quando gloriosos malucos pilotavam máquinas voadoras. Mas os projectos de Konrad Dannenberg subiriam mais alto do que os Zeppelin e os Flugzeug rudimentares. A paixão do jovem prussiano licenciado em Engenharia Mecânica manifestou-se pelos foguetões. A sua loucura não era, afinal, tão gloriosa como a dos outros. Em 1940, depois de, com a farda daWehrmacht, ter participado na invasão da França, mudou-se para o centro de investigações militares de Peenemünde, onde, sob a direcção de Werner von Braun e Walter Thiel, trabalhou nas V2 que semeariam a destruição em Inglaterra. Caçado pelos americanos em 1945, foi levado, com 117 colegas (entre os quais von Braun) para ultra-secretas instalações onde aperfeiçoou os mísseis balísticos que gelaram o clima da guerra fria. Fundada a NASA, integrou os quadros da agência espacial e colaborou na corrida à Lua disputada com os soviéticos. Morreu no domingo, 15, com 96 anos, 63 após o julgamento de Nuremberga. Ele e os 117 do seu grupo foram interessadamente salvos pelos mesmos que condenaram muitos dos responsáveis pelo terrorismo nazi.»
Muitos dos que sabem da coisa são sempre chamados para os interesses imperativos do momento. Antes, era a Guerra Fria e o esmagamento de um socialismo mal parido pela concorrência das armas. No presente as armas são também financeiras: foram-nos sempre, na verdade, mas agora mais nítidas e mas ubíquas do que nunca. Não lançadas contra um socialismo centralizado e, por isso, também bloqueado pelo administrativismo partidário e dirigista, mas contra o aparelho produtivo das próprias sociedades capitalistas, cujas relações de produção determinaram as condições da sua crise.
Grande parte do capital não circula nas trocas de bens fabris e de consumo mas foi acumulado pelas mais-valias resultantes do carácter privado das trocas. Nem sequer é guardado para suprir, quando preciso, a necessidade daquelas.
Essas mais-valias saíram do circuito produção-consumo-produção e foram desviadas, sobretudo através da distribuição de dividendos e do excedente das receitas empresariais privadas, somadas à fuga aos impostos, aos frutos da economia clandestina, etc.,  para contas destinadas à especulação financeira.
O dinheiro não nasce do nada: nada se perde, tudo se transforma, como dizia o químico e político financeiroLavoisier. Saíram da produção e cativam-na, assim como à vida social, da qual constituem a base material, por meio dos fundos de investimento, com taxas de juro sobre o crédito tão altas que grande parte da riqueza da produção volta para as mãos dos mesmos que emprestam com os frutos das mãos que deles passam a depender.
O lucro é em espiral. Alimenta-se vorazmente dos outros através de um círculo-vicioso que incha mercê da sua lógica mesma.
Não se chama a isto um roubo? Mas é o que está a suceder. Antigos funcionários do banco de investimento americano Goldman & Sachs, um dos grandes responsáveis da crise económico-financeira de 1998, assim como de outras agências do grande capital, e comprometidas na sua causa, vão, à semelhança dos regenerados da catástrofe nazi (passe a devida desproporção quanto às mortes mas não quanto à miséria económica e à destruição de projectos de vida e quanto à competência demonstrada para criarem estas misérias e estas destruições), ocupando uma a uma as democracias ocidentais: o novo presidente do Banco Central Europeu, o novo primeiro ministro grego, o novo primeiro ministro italiano, o ministro português das finanças, esse Vitinho que nos leva para os braços de Morfeu – tudo cabeças-de-turco do mesmo corpo. As mesmas potências que contrataram antigos nazis para defenderem as democracias, agora contratam gestores para as converterem em oligarquias. Jano tem duas caras, mas estão ligadas pela mesma cabeça ao mesmo tronco. O passado e o futuro estão sempre nele presentes a seus olhos. Não importa que meios se usa, desde que se mantenha a ordem dos privilégios de classe.
A democracia transformou-se, mais do que nunca, numa ficção. A comunicação social dominante, propriedade de capitalistas, convence os humildes trabalhadores de que a culpa é sua: a de terem consumido, incentivados pela ideologia publicitária a serviço, o que o comércio internacional, com base na divisão internacional do trabalho explorado e criador da mais-valia, lhes põe à frente, e cujos lucros, retirados dos trabalhadores, servem de seguida para empenhar os Estados; a de terem feito dos seus Estados meios de previdência, acima do que produzem, da sua saúde, reforma, segurança, cultura, ensino, habitação e transportes.
Mas de quem é a riqueza mundial que controla e desequilibra a balança de pagamentos e a dívida externa dos países e dos Estados, se é o trabalho, globalmente distribuído e dividido, que a gera, se até a Alemanha precisa de crédito?
É onde está a pobreza que mais se produz, é para lá que vão as máquinas e as empresas, sob o manto protector da liberdade de comércio. Se essas multinacionais, apoiadas pela força da diplomacia e pela diplomacia da força, lutam entre si pela sobrevivência, as empresas e os Estados mais pequenos, geograficamente desfavorecidos e exíguos de matérias-primas, muitas vezes igualmente desgovernados pelas classes dirigentes empenhadas em lutas de classe internas, forçados também a consumir o que aquelas produzem, acabam por cair inevitavelmente em dívida. É que naquilo mesmo que consomem, somado àquilo que, por causa das injustiças da concorrência económica internacional, são forçados a não produzir, em compensação, vem já a factura do lucro obtido sobre o valor do trabalho subavaliado nos países ditos emergentes e que depois há-de servir para emprestar aos Estados ditos preguiçosos, a fim de continuarem a consumir.
A crise resulta, não de sermos preguiçosos e de termos direitos a mais (o que são direitos a mais quando se fala das necessidades que fazem do homem aquele ser cujo destino é precisamente desenvolver-se indefinidamente?) mas do carácter privado da produção, da divisão privada mundial do trabalho e da especulação internacional decorrente das mais-valias abstraídas das necessidades produtivas.
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