Miguel Palma – Um Certo Realismo no Nosso Tempo

Esteve em exposição no CAM – já há um certo tempo atrás, mas falo dela porque a arte não tem tempo – o balanço provisório (há-de haver mais) da obra de Miguel Palma, um homem de simpatia natural para com as pessoas e para as coisas e suas comunicações, que desvela com o seu olhar sempre bom, se bem que menos cândido e mais sapiente do que por vezes dá a parecer. É um homem que eu bem conheço, cheio de bonomia e de candura no olhar. Uma das suas últimas instalações é Osmosis (2009), que também esteve patente na sua mostra.
Que o Miguel me perdoe por escrever o que aí vai de mim sobre Osmosis, ele que nunca está, como afirmou, nada preocupado que aquilo que faz é arte ou não no acto criativo. Só depois se preocupa com a questão da validade artística dos seus objectos. Porque ele se compreende a partir do interior da sua criação que, por sua vez, é um espelho de uma sorte de vida real das coisas.
Se é inegável a presença de uma contaminação mútua ou, talvez, melhor, uma génese recíproca entre a funcionalidade e a significação, uma osmose própria do viver humano na produção tecnológica, tematizada por Miguel, ele gostaria que ela aparecesse, de início, com a evidência de um dado adquirido e não pensado quanto às implicações no modo de vida, natural e humano, cujo valor a ideologia tecnológica, oculta pela sua maneira eficaz e tão natural de divertir, estimular e facilitar, mede em termos da operacionalidade.
Que a realidade funcione, que seja função, isso é que importa mostrar. Em toda a sua crueza. Em toda a sua evidência, tão evidente que é natural. E tão natural que choca contra o suplemento de alma com que gostamos de decorar e até de dar sentido ao mundo através da arte – o lugar do lirismo por excelência e onde este pode unicamente, junto com a religião, mostrar-se sem vergonha de ir contra como as coisas devem ser. A Picasso o que é de Picasso, a César o que é de César. E essas coisas devem ser porque são. Isto é, se chocasse, já que a comercialização e a tolerância estética dos dias de hoje neutraliza qualquer ideia que possa assomar, através da arte, à superfície dos crânios bem polidos e vazios, a não ser de conhecimentos técnicos.
E que que a vida funciona no sentido estrito da palavra, sem nenhum poder ex machina, isso está suposto na maquinaria de Miguel, a qual se recusa a ser simbólica, a prestar-se a um romantismo que nos levaria para além daquilo que ela quer mostrar. O que ela quer não é nada, é apenas funcionar, reduzindo a realidade, e a vida humana nela, a um método em ordem a um fim que, no caso humano, é o funcionamento no circuito social e económico, que apenas muda para resolver os problemas do seu próprio funcionamento e gera ideias e gostos que fazem parte dos seus processos impulsionadores do consumo para um crescimento sistemicamente necessário e das peças mentais de auto-estimulação produtiva.
É o curto-circuito do sentido da vida, pois não há sentido para o homem quando ele se torna um meio apenas para vencer os desafios tecnológicos dos problemas de funcionamento da existência humana e natural. O homem individual é um meio para um fim, e esse fim é o próprio sistema em funcionamento e – reconheçamos ser imperfeito – em tentativas de fechamento às forças externas ou de assimilação elas e em auto-adaptação. Mas será bem assim?
Eis o que tenho a dizer sobre Osmosis. Só há sistemas aparentemente fechados, parece dizer a instalação. Tudo é interdependente. Ao mesmo tempo, essa interdependência é ignorada nos subsistemas pelos organismos vivos e conscientes que neles habitam e pensam. É o princípio de tragédia: temos que decidir sem qualquer possibilidade de conhecer por inteiro as razões e as consequências dos nossos actos, quando são voluntários, embora motivados por razões que a nossa própria razão desconhece. Toda a acção planeada e executada num lugar, físico ou mental, ignora uma infinidade de conexões que lhe foram necessárias, como se tratasse de um fatalismo. E, na sua indigência fundamental, é assim que é tratada.
Os peixes da Osmosis nada sabem dos outros lugares aos quais estão vitalmente ligados. A sua fragilidade não está tanto no seu pequeno organismo quanto no mecanismo do sistema em que vivem e que lhes é indiferente.
Em coerência, Miguel Palma deixa-se abrir a uma espécie de necessidade que as peças que vai combinando não encontram em si mesmas. Miguel, após muitas manipulações aparentemente fortuitas – que o são também para ele -, assume-se, não apenas como inventariador de objectos externamente classificáveis, mas sobretudo como coreógrafo de uma dança que não imagina nem concebe, e acaba então por descobrir nas peças uma coerência, uma sistematicidade acreditada pela lógica do real. Como se o real pudesse ser sem quem lá vive, nomeadamente sem as pessoas. Como se o real fosse o racional.
Palma deixa fazer as suas obras fazerem-se, não como contemplador mas como fazedor de relações reais já existentes, um pouco à maneira de uma estética concebida por um Diderot dos séculos XX e XXI. Não inventa nem procura. Como Picasso, na senda dum realismo actual, constrói só o que pode encontrar.
Mas Miguel Palma não pode evitar apresentar-se como o algoritmo artístico satisfeito duma visão pessimista das coisas: a tecnologia, que primeiro pareceu estar ao serviço do homem, vai tomando-lhe o leme, e o seu timoneiro nada mais faz do que obedecer-lhe. O timoneiro, os contramestres e os marinheiros navegam bem melhor com ela mas obedecem cada vez mais à ordens dos sistemas que inventam e que lhe ditam a ordem do dia e os seus próprios pensamentos.
Apesar de todos julgarmos ser liberdades originárias, livres-arbítrios, HegelMarx, Nietszche, Freud e outros expressaram as suas dúvidas, explicando que as nossas ideias são um produto inconsciente dos sistemas sociais e tecnológicos aos quais pertencemos. Já no século XVII, o nosso grande Espinosa escrevia alegoricamente que, quando a criança deseja o leite, julga que o faz por livre vontade na medida em que ignora a necessidade que faz desejá-lo.
Mas Miguel vai mais longe: nada podemos contra isso. Essa tecnologia que pervade tudo e que se transforma em tudo, que obedece aos seus princípios de ferro: a economia é um mecanismo, a ideologia é um mecanismo, as emoções são um mecanismo, os gostos e as preferências são um mecanismo ou, pelo menos, comandados por um sistema totalizador do qual eles são parte.
Não somos senão o mundo que inventamos. Será verdade o que mostra Miguel Palma? Ou será – dado que os bons artistas são instrumentos sensíveis da realidade – que Miguel Palma apenas – o que já é muito – expressa a convicção (típica, quer das classes dominantes quer das dominadas por aquelas, não só economicamente como também ideologicamente, e, neste aspecto, pouca diferença fazem) de que é impossível ser-se um agente transformador da sociedade nos seus aspectos essenciais, visto que há um mecanismo cego e oculto que tudo comanda?
E não terá Miguel Palma razão, enquanto expositor da nossa impotência real? Mas há-de ser sempre assim, com a realidade a dar-se mal com a razão? Talvez.
Miguel Palma – um artista sempre a seguir.
Anúncios