Descartes – A Dúvida Metódica Relembrada Num Tempo de Dogmas e de Pensamento Único

 

A todos aqueles para quem ainda agora as suas evidências (dogmáticas ou cínicas) estão fora de dúvida. Um poema meu como intróito.)

XI
não há certezas não há certezas
mas para que queres tu certezas
se a certeza a haver é de errar
através das perguntas dos passos
atrás das cerdas dos vendavais
de braço dado com a traição
mas desconfiado de toda a oferta
porque poluíste a inocência
com a tua inveja e vã cobiça
não há certezas não há certezas
que a única certeza é a tua
de tirares terra a outros pés
e esmagares com essa dúvida
esta lucidez dos horizontes
se bem que de promessas roubadas
Mas que não tenhas tanto a certeza
de que outra talha não haverá
1. saber até agora tem estado assente em bases frágeis, na fé, no princípio de autoridade, nos livros antigos, nos sentidos, nas opiniões e valores que nos transmitem e pelos quais interpretamos a nossa experiência. André Bridoux escreve: «Na história, Descartes aparece como o libertador do pensamento puro. A primeira regra do método: “Não tomar nada por verdadeiro que não o conceba evidentemente ser tal”, formulada na data de 1637, possui todo o valor de um princípio revolucionário. Vivia-se então sob a autoridade dos antigos e da filosofia escolástica. Os contemporâneos de Descartes pensavam muito sinceramente que um conhecimento era verdadeiro quando fazia as suas provas, quando resistia sobretudo ao tempo. […] a filosofia escolástica, que procedia de Aristóteles e que havia recolhido a aprovação da Igreja, parecia a soma da verdade. Esta filosofia, que fazia eco do senso comum, ia das coisas às ideias. Apoiava-se sobre a experiência sensível, sobre a linguagem e sobre a vida. A sensação revelava-nos qualidades cuja realidade objectiva não era posta em dúvida e através das quais o espírito, por via de comparação e abstracção, elevava-se até aos conceitos, expressos nos termos da linguagem. A verdade dos conceitos era garantida pela sua coincidência com as formas substanciais, espécies de pequenas almas, análogas àquela que era suposto estar unida ao corpo vivo para o animar e para assegurar-lhe o acordo da matéria com a forma imutável da espécie. Realista de intenção, esta filosofia era, pois, de facto antropomórfica, porque acabava por projectar sobre as coisas a experiência sensível e a experiência íntima do sujeito.» (BRIDOUX, André, “Introdução” in DESCARTES, Oeuvres et Lettres). A experiência do sujeito é projectada inconscientemente nas coisas, conduzindo à ignorância da actividade cognitiva, epistémica do próprio sujeito, que olha para elas com para ele sem se dar conta disso, tal como mostra Jean Piaget: «A teoria das formas, em Aristóteles, em vez de se orientar para um construtivismo dialéctico, [para uma construção do conhecimento pelo sujeito em interacção com o meio] termina pois numa hierarquia imóvel cujo andares superiores explicam os inferiores e cuja finalidade integral e a noção de passagem da potência ao acto [da matéria à forma que se desenvolve nela, como no resultado das acções humanas] excluem qualquer epistemologia da actividade do sujeito [transformado que está inconscientemente no objecto do próprio sujeito]» (PIAGET, Jean, Sagesse et Illusions de la Philosophie, pp. 71-72). Numa outra obra Piaget expressa-se talvez ainda com mais nitidez: «Herdeiro do mesmo “realismo” [das Ideias] de Platão, não tinha no entanto as mesmas razões para situar as Ideias num mundo supra-sensível, porque os conceitos ou classes lógicas fazem corpo com um conteúdo perceptível. Mas continuando a ignorar as intervenções de um sujeito activo do conhecimento, tornava-se-lhe necessário atribuir a essas Ideias ou Formas uma existência e um papel independentes do sujeito e às quais o próprio sujeito estivesse subordinado: donde a teoria das Formas imanentes aos objectos, determinando as suas propriedades e dando conta aliás da silogística [lógica] graças a essas hierarquias formais constitutintes do real. Quanto a saber como é que o sujeito descobre essas Formas, bastava-lhe invocar o duplo processo da percepção dos objectos dominados por elas e da abstracção a partir dos dados perceptivos, permitindo dissociar as Formas dos conteúdos [relacionando-as entre si como substâncias genéricas compreendidas umas nas outras]. A isso se junta o facto de que as Formas, ao organizarem assim todos os corpos, organizam “a fortiori” os corpos vivos e a alma com as suas “faculdades”, o que no entanto não implica a descoberta da actividade do sujeito do conhecimento, porque conhecer resume-se apenas a apreender Formas acabadas e não a construí-las.» (PIAGET, Lógica e Conhecimento Científico, I, pp. 29-30). Era contra aquela autoridade e este saber suspeito mas dominante que Descartes tinha de lutar.
2. Nada há que me garanta uma única verdade: os sentidos não são critério. Tenho ilusões de óptica, como a diferença aparente do tamanho dos objectos, as miragens, as distorções, os pontos-de-vista. As cores variam, o sonho mostra-me que as sensações podem ser uma fantasia e nada me garante que não esteja a sonhar nem que haja qualquer coisa para além dos sentidos. O entendimento, por si só, com as suas operações, também não me prova que corresponda a algo de real, pois podemos explicar um mesmo facto segundo entendimentos diferentes (Anaximadro dizia que uma espécie provém de outras, Heráclito que tudo é uma identidade de contrários, Platão que as Formas são o modelo e essência das coisas sensíveis, Aristóteles que a espécie é sempre igual a si-mesma). Pode mesmo acontecer que um deus, a existir – o que, por enquanto, nada me demonstra –, me tenha alterado de tal modo o meu raciocínio que ele se desvie em absoluto de qualquer conhecimento autêntico; em qualquer caso, é bem possível que as demonstrações lógicas e matemáticas assentem em princípios falsos. Jean-Marie Beyssade esclarece: «Se, como afirma uma velha opinião de origem religiosa, eu fui criado por um Deus todo-poderoso, então também no seu poder caberá o fazer de tal modo que sempre o meu espírito labore em erro, até mesmo quando se ocupa de matemáticas; […] as operações naturais do espírito, como a dedução e a intuição, pressupõem uma confiança na luz natural, na natureza de um espírito [o humano] que, sentido-se como um efeito, ignora ainda a sua causa.» (BEYSSADE, Jean-Marie, “Descartes”, in dir. CHÂTELET, François, História da Filosofia, 2, p. 102). Por seu lado, os livros assentam em princípios lógicos e ontológicos, ou fundamentos da realidade, tão pouco evidentes e nada indiscutíveis que lhe posso contrapor outros, à minha vontade, e daí que haja tantas doutrinas e tão poucas certezas; a fé não fundamenta, nem pela experiência nem pela razão, consiste apenas numa crença; finalmente, o princípio de autoridade não prova, ordena. Como não posso duvidar de tudo, se manda a prudência deixar de crer naquilo que me enganou pelo menos uma vez ou que é susceptível de me enganar?
3. Posso até duvidar da minha existência sensível e do mundo em geral, pois sou capaz de imaginar ser iludido quanto às existências e essências das coisas, sobretudo físicas, a começar pelo meu corpo, pelo poder superior de um “génio maligno”. É a “dúvida hiperbólica”.
4. Todavia, se duvido não posso duvidar que duvido.Se duvido, sou algo que duvida, quer dizer, existo como actividade de duvidar, sou algo. Por outras palavras, existo. Em suma, é pela dúvida que posso duvidar de tudo menos de que duvido, portanto do ser do duvidar. Logo, posso dizer de mim que sou uma substância, um ser que tem atributos exclusivos, distintos de tudo o resto. Cheguei a esta conclusão pelo facto de poder prescindir da crença em tudo o resto menos de que duvido. E, se duvido, penso; e, se penso, existo. (Descartes parece esquecer que “duvidar” implica algo de que se duvida e que a “dúvida” não nega a “existência” da coisa de que se duvida nem afirma uma “existência” autónoma da “dúvida” ou do “pensar”, ao invés de se considerar o pensamento como uma função de um determinado “ser vivo”: já alguém dizia que não existe a “consciência” em si-mesma mas o “ser consciente”, o homem.) Escreve Descartes: «Mas, logo em seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o pensava, necessariamente era alguma coisa. E, notando que esta verdade – eu penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.» (DESCARTES, Meditações Metafísicas), «por isso compreendi que era uma substância, cuja essência ou natureza é apenas o pensamento, que para existir não tem necessidade de nenhum lugar nem depende de nenhuma coisa material.» (Idem, Discurso do Método). A razão tem o poder de por si mesma determinar, como correspondente às suas ideias, claras e distintas ou construídas por ordem, diversas formas de existência, como a própria razão, o corpo, o mundo exterior e Deus.
5. Se, portanto, sou uma substância, produzo as ideias, o conteúdo de mim próprio (do cogito puro que sou), o que inclui as relações entre elas. Pelo mesmo motivo, a avaliação da verdade das ideias, da relação entre o meu pensar e o ser (realidade), é determinada por mim, isto é, seguindo o meu próprio critério do verdadeiro e do falso. «E tendo notado que nada há no “eu penso, logo existo” que me garanta que digo a verdade, a não ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei que podia admitir como regra geral que é verdadeiro tudo aquilo que concebemos muito clara e muito distintamente; […]» (DESCARTES, Discurso do Método). Descartes assume, pois, que todo o pensamento que tenha a mesma evidência, clareza e distinção do “penso, logo existo” é necessariamente verdadeiro, embora tenha concluído antes, algo inconsistentemente, que o único pensamento claro e distinto é o “penso, logo existo”.
6. Contudo, Descartes tem consciência de que a “existência” enquanto “ser pensante” só pode constituir fundamento último e definitivo caso se dobre, se recubra de uma ainda mais básica ideia clara e distinta. Pois, como afirma Descartes, voltando a apelar à divindade como o faziam os Antigos e Medievais, «Pode dizer-se que ignorando Deus, não se pode ter um conhecimento certo de qualquer outra coisa.» (DESCARTES, Principes, I, 13). De facto, escreve Jean-Marie Beyssade, «Descartes, que começava por passar um pouco apressadamente do conhecer ao ser, iria, pelo aprofundamento da dúvida, descobrir a dificuldade dessa passagem: que eu tenha a certeza de que existo no próprio momento em que admito que nenhum corpo existe, não me autoriza ainda a concluir que prescindo do corpo para existir, pois poderia suceder que o meu corpo, ainda que me seja desconhecido, fosse na realidade, e sem eu o saber, o verdadeiro autor dos meus pensamentos.» (Ibidem, pp. 104-05).
Como diz Descartes, «Preciso de Deus para saber com certeza a minha essência» e que sou «uma substância cuja essência ou natureza não é outra senão pensar.» (DESCARTES, Discurso do Método, IV, VI, 33), embora, pela análise clara e distinta que a sua razão faz dos corpos, reduzindo-os à pura extensão, à figura e ao movimento, exclua tanto deles qualquer traço de pensamento quanto elimine da ideia de si-mesmo como ser pensante qualquer elemento material. A razão, consciência de si-mesma, cujo ser é reflectir-se mentalmente em si-mesma, subsiste por si própria sem necessidade do corpo. Em todo o caso, vimo-lo, o espírito livre precisa de provar a si-mesmo a existência e a veracidade de Deus para se provar a si-mesmo como existente enquanto tal e a veracidade das suas ideias. É que para o “idealismo”, o qual desligou o “trabalho intelectual” do “trabalho manual”, o critério de verdade não pode ser a “prática” (práxis), como faz a ciência digna desse nome, mas uma divindade que assegure a harmonia entre o pensamento e a realidade.
7. No itinerário metafísico cartesiano, que vai da dúvida à evidência, mantém-se todavia a defesa do “primado do sujeito”: se há verdade, ela justifica-se por mim, já que nada há mais certo do que eu mesmo e não há outra razão senão aquela que me constitui enquanto ser pensante. Porque qualquer outro modo de pensar, ou seja, que não parta desta evidência primeira – garantia e critério da verdade –, que constitui uma atenção do espírito sobre si-mesmo, ao contrário da impessoalidade da inteligência aristotélica, que atenta antes sobre a suposta lógica da realidade exterior, não é racional. Não posso fundar a verdade em algo menos certo. Por conseguinte, é só a partir das ideias “inatas”, imanentes, da razão que esta, em si-mesma, pode descobrir as leis do real.
8. Suponho, pois, pelo critério da evidência, que a razão corresponde ao real, e que essa adequação deve torna-se certa no próprio funcionamento autónomo da razão. Descartes opõe-se aqui aos empiristas, para os quais nada se encontra no pensamento que não tenha estado primeiro nos sentidos, o que também havia sido defendido por Aristóteles e pelos Escolásticos, grande parte deles filósofos aristotélicos da Idade Média, a que Descartes se opunha. É, pelo contrário, na evidência que cada indivíduo pode descobrir na sua razão que se encontra o critério da verdade. Este não reside na crença, na autoridade institucional, na cultura livresca, na experiência sensível, numa razão que se eleva a partir da indução empírica até ao pressuposto da divindade fundadora e estruturante, nem na certeza imediata de um Ser supremo que organizaria o mundo segundo as formas que o pensamento se limitaria a reconhecer, não a construir pelas suas próprias operações. Nenhuma dessas convicções externas nos dá certezas.
9. “Penso, logo existo” (‘cogito ergo sum’), ou, noutra versão, “duvido, logo existo”, é, pois, o modelo da verdade e a fórmula da reivindicação moderna da liberdade do pensamento. É a característica da razão como imanente a cada indivíduo, essência autodeterminada de cada pessoa, mas não obstante idêntica em todas elas. A fim de se assegurar da verdade da consciência de si-mesma como consciência do mundo, tem de seguir um “percurso metafísico” segundo uma ordem necessária em três partes:
(1) da dúvida,
(2) passando pela certeza primeira da existência do sujeito individual como substância pensante, critério de origem subjectiva e de evidência da verdade,
(3) pelas provas causal e existencial de Deus enquantoperfeição infinita e garantia criadora da verdade das ideias, e correspondendo por conseguinte ao real,
(4) depois continuando pelas “regras do método” – vividas numa intuição mental, subjectivas, sustentadas nas “evidências metafísicas” – a “intuição” e a “dedução”.
10. Descartes é o primeiro a defender:
(1) o “primado do sujeito como fundamento do conhecimento” (o primeiro objecto do pensamento é o próprio pensamento individual, de cujas intuições intelectuais e operações depende a consideração sobre a estrutura, natureza e existência dos objectos exteriores, suspensos da procura de certeza pelo próprio indivíduo, que, enquanto “consciência”, se apreende, e apreende na sua própria apreensão a verdade perfeitamente),
(2) opondo-se ao “primado do objecto como origem espiritual divina, transcendente, ou material do conhecimento”, sendo este meramente contemplativo de uma realidade que lhe imporia, sem dúvida e discussão, a sua lógica e as suas formas universal e particulares, primado do real sustentado pela Escola (o Ser supremo ininteligível, apenas fonte de fé, e as formas substanciais aristotélicas de um cosmo que se concebia dar à partida a organização e a forma de pensar da alma) e pelos materialistas Antigos. Para Descartes, ao invés, só há uma substância, Deus, causa voluntária dos efeitos materiais e das evidências racionais originárias da consciência.
11. Caracterizando o “primado do sujeito”, começa por escrever Jean-Marie Beyssade: «reivindicou face aos teólogos o direito de filosofar segundo a razão natural e simplesmente humana, […]», para depois continuar: «”Penso, logo existo”. O primeiro conhecimento certo alcançado por quem ordenadamente conduza o pensamento reportando-se à existência do próprio sujeito pensante, isto é, de uma coisa individual. É certo que não se trata de algo material, tal como as particularidades que conhecem os sentidos: […] O indivíduo que se descobre como o mesmo ao reflectir sobre os seus diferentes pensamentos, descobre ainda com o pensamento um elemento simples de um novo género: Descartes traz à língua francesa a palavra “conscience” (consciência), […] Todas as razões para duvidar se quebram de encontro a esse algo pensante, cujos pensamentos são indubitáveis, porquanto se desdobram numa ideia, isto é, na possibilidade de o sujeito se tornar consciente deles, […]» (Ibidem, pp. 103-04), isto é, ser o sujeito permanente, substancial, das suas ideias, criando-as por intuição mental e dedução e fazendo delas objectos do seu pensar; um sujeito individual que se reflecte a e em si-mesmo, prescindindo da experiência sensível.
12. Todavia, pode ser que alguém questione a conclusão de que as ideias claras e distintas correspondam ao real, sejam verdadeiras por direito próprio. «se não soubéssemos que tudo o que existe em nós de real e de verdadeiro provém de um ser perfeito e infinito, por claras e distintas que possam ser as nossas ideias, nenhuma razão teríamos que nos certificasse que elas possuem a perfeição de serem verdadeiras.» (DESCARTES, Discurso do Método). Ora, deve-se responder-lhe que o fundamento de tal correspondência é ele mesmo uma ideia clara e distinta e, portanto, indubitável, garantia absoluta. São verdadeiros os pensamentos que para a nossa razão estão fora de qualquer dúvida: tudo o que penso clara e distintamente, existe.
13. A própria ideia de Deus é uma ideia clara e distinta inata, a visão de um conteúdo do espírito pelo próprio espírito, mas resultante de uma conexão entre outras ideias claras e distintas, que se ligam entre si pela própria evidência da sua ligação, dando a “ver” um novo objecto intuitivo. Precisamos, portanto, de analisar os elementos mentais dessa intuição evidente, de pôr por ordem as relações que se apresentam com necessidade ao nosso espírito.
14. Comecemos pela “prova pela causa”. É indiscutível a verdade do nosso pensamento, apesar de sermos imperfeitos, visto que duvidamos. A ideia de “imperfeição” supõe a ideia de “perfeição”, de outro modo nem nos julgaríamos perfeitos nem imperfeitos.
15. Temos, portanto, a ideia clara e distinta de um ser perfeito. Um ser perfeito tem todos os atributos da perfeição: tudo sabe e não engana, tudo cria, e existe. É o criador da realidade, da razão, da verdade, do nosso pensar. Podemos dizê-lo de outra maneira: Tem de haver algo de mais perfeito, ou seja, de mais “completo” em todas as qualidades que possamos conceber, nomeadamente ser a “substância” infinita e “causa” de tudo, da “realidade” exterior e dos meus “pensamentos”. Ele é “causa” absoluta de tudo, substancialmente anterior às suas criações, como seus efeitos.
16. É por isso mais substancial, mais real que a sua criação, incluindo os meus pensamentos. Pelo que estes não podem ser a causa desse ser e da sua ideia, mas, pelo contrário, o meu pensar tem por causa esse ser supremo a que dou o nome de Deus. «aquela [ideia] pela qual concebo um certo Deus, eterno, infinito, omnisciente, omnipotente e criador de todas as coisas que estão fora dele próprio, tem em si, de facto, mais realidade objectiva do que aquelas por que são representadas as substâncias finitas. […] não posso, por conseguinte, ser a causa dessa ideia […, e] embora pela razão de eu ser uma substância esteja em mim uma certa ideia de substância, no entanto, como sou finito, ela não seria a ideia de uma substância infinita a não ser que procedesse de outra substância que fosse realmente infinita.» (DESCARTES, Meditações Metafísicas).
17. Se mais fosse necessário para provar a “existência” de Deus, como se eu pudesse ter a ideia clara e distinta da essência do Ser supremo com o seu carácter absoluto mas a que não correspondesse nada de real, como se pudesse haver a ideia de um ser perfeito sem existência, e que portanto não existisse para me dar a ideia da sua perfeição, apresentar-se-ia ainda o chamado “argumento ontológico”, já formulado por Anselmo na Idade Média: «Do facto só de não poder conceber Deus sem existência, resulta que a existência é inseparável d’ Ele, e que, portanto, ele existe verdadeiramente [É a prova pela existência]» (DESCARTES, Meditações Metafísicas).
Recordemos que Leibniz contrapôs que clareza e distinçãonão constituem critérios de verdade e que Kant mostrou que a razão por si mesma nada pode provar quanto à “existência” real, e que, quer no contexto do entendimento empírico quer no da razão que procura os primeiros fundamentos, o uso do verbo “ser” para a atribuição de predicados a uma coisa pode gerar a noção ilusória de “existência” dessa coisa mas que, em última analise, consiste apenas numa função lógico-gramatical, nunca numa prova ontológica.
18. Logo, por Descartes, se Deus é a causa das nossas ideias, elas são verdades absolutas.
19. O que é interessante nesta fundamentação divina do pensamento reside no chamado “círculo cartesiano” em que se enreda este raciocínio: Deus é simultaneamente ideia inata da nossa razão e fonte transcendente da nossa razão e das ideias desta. Assim, a filosofia de Descartes é susceptível de ser abordada por dois lados opostos e indecidíveis: o lado inquietante para o dogma religioso (nós somos, como pensar livre e autónomo, os criadores da própria ideia de Deus); o lado teológico, metafísico (Deus cria a ideia de si mesmo em nós). Porém, por ambos os lados, Descartes cai no dogmatismo de uma razão indubitável, única e absoluta.
20. Mas os poderes instituídos nunca duvidaram de que, com a sua ambiguidade e sobretudo, com a sua tese da razão autosuficiente, que descobre a verdade e a sua fonte por si própria sem precisar de certificados institucionais, abria as portas ao livre pensamento.
Esta atitude, uma das maiores contribuições de Descartes, foi plenamente compreendida pelo grande matemático do séc. XVIII, D’Alembert, que escreveu: «Descartes ousou, pelo menos, mostrar aos bons espíritos como sacudir o jugo da escolástica, da opinião, da autoridade, numa palavra os preconceitos e a barbárie; e, com essa revolta, da qual recolhemos ainda os frutos, prestou à filosofia um serviço mais essencial talvez que todos os que ela deve aos seus ilustres sucessores.» (D’ALEMBERT, “Discurso Preliminar” da Enciclopédia (IIª Parte).
21. As instituições, não é demais repetir, aborreciam opensamento e a criatividade autónomas e divergentes a respeito dos seus dogmas, apoiando-se para isso numa concepção do mundo aprendida nos livros de Aristóteles e seus epígonos medievais (Tomás de Aquino, etc.), que estruturava a realidade segundo uma ordem hierárquica, fixada de uma vez para sempre e caracterizada verbalmente em termos de substâncias e formas essencialmente distintas umas das outras, assim como de finalidades predefinidas para cada espécie de coisas e classes sociais, como se descrevesse um mundo petrificado, inamovível até à eternidade. Muito conveniente para quem quer conservar o poder, até porque um saber meramente “verbal” pode instrumentalizar mentes mas não satisfaz as classes ascendentes desde o Renascimento, se não antes, mercantis, industriosas, burguesas, que precisavam de um tipo de conhecimento não descritivo e qualitativo mas inventivo, aquele precisamente que Descartes – e antes dele Galileu – preconizaram e desenvolveram: o da invenção/descoberta dos padrões ou formas possíveis respeitantes à técnica ou ao mundo natural, e das suas transformações.
22. Neste momento, podemos precisar as relações entre ométodo matemático, colocando o verbalismo qualitativo, superficialmente sensível e “magicamente” finalista, em segundo plano, e a proclamação, ainda que ambígua, da liberdade e autonomia do sujeito, em particular no conhecimento. Valemo-nos da análise de Jean Piaget: «O fim do século XVI e o século XVII marcam na história das matemáticas aquilo a que se poderia chamar a tomada de consciência histórica das operações, […] quer dizer, pelo sentimento de liberdade das construções. Deste ponto de vista, o primeiro dos dois acontecimentos fundamentais foi a constituição da álgebra enquanto disciplina autónoma tão válida e importante como a geometria: com efeito, a álgebra não recai sobre figuras aplicáveis ao real [percepcionado] mas sobre transformações operatórias ao mesmo tempo solidárias das operações construtivas do sujeito [na sua espontaneidade activa para com o real] e aplicáveis a uma região do real mais profunda do que as figuras do espaço, [a das transformações] pois que se trata das próprias modificações, de que os estados figurais [as formas geométricas] nada mais são então do que resultantes. O segundo acontecimento fundamental foi a síntese da álgebra e da geometria nessa “geometria analítica” que constituiu a descoberta essencial de Descartes. Capaz, desde então, de se opor à epistemologia de Aristóteles, Descartes funda a epistemologia moderna, […] descobre finalmente a existência do sujeito do conhecimento, não já de um sujeito contemplativo, quer dizer, passivo, mas do sujeito fonte de construções, que ao mesmo tempo inventa em matemáticas (em vez de simplesmente “descobrir”) e estrutura o conhecimento físico.» (PIAGET, Jean, Op. Cit., p. 30). Descartes é claro a respeito da inventividade subjectiva, autónoma, do pensamento inato face aos constrangimentos da experiência e dos limites actuais do real, ainda que todas essas ideias possuam uma natureza verdadeira, numa procura de conciliar a “subjectividade” com a “objectividade”, contra o subjectivismo arbitrário, uma espécie de irracionalismo, sendo para isso Deus causa infinita do meu pensar. É como se já antecipasse, até certo ponto, a tese de Hegel segundo a qual o racional vai para além do real presente, encontrando-se o cogito humano entre a finitude das coisas e a infinidade divina pressuposta pelas ideias particulares, como a razão se pressupõe a estas e a extensão às suas figuras e movimentos, o que vai no sentido contrário da negação Antiga e Medieval da actualidade do infinito no mundo e das correspondentes possibilidades infinitas no pensamento. Diz então Descartes: «E o que é mais notável é que eu encontro em mim uma infinidade de ideias de certas coisas que não podem ser consideradas um puro nada; ainda que não tenham talvez existência fora do meu pensamento, elas não são inventadas por mim; embora tenha liberdade de as pensar ou não, elas têm uma natureza verdadeira e imutável. Como, por exemplo, quando imagino um triângulo, ainda que, fora do meu pensamento, talvez não exista em parte alguma do mundo uma tal figura, ou mesmo nunca tenha existido, ele não deixa, contudo, de ter uma certa natureza ou forma, ou essência determinada dessa figura, a qual é imutável e eterna, que nunca inventei e não depende do meu espírito. [mas também não da experiência e do senso-comum, oposto ao bom-senso ou razão…] posso formar no meu espírito uma infinidade de outras figuras que estou certo que nunca caíram sob os meus sentidos, e não deixo por isso de poder demonstrar diversas propriedades relativas à sua natureza […] pois as concebo claramente. E, portanto, elas são qualquer coisa e não um puro nada, pois é evidente que tudo o que é verdadeiro é qualquer coisa, e já demonstrei que todas as coisas que concebo clara e distintamente são verdadeiras.» (DESCARTES, Meditações Metafísicas).
23. A acção sobre o mundo, e não apenas a sua contemplação, só pode ser feito pelo domínio das relações quantitativas que estão na base das mudanças, isto é, como já dizia Galileu e repetiu Descartes, através dalinguagem em que está escrito o universo, a matemática.
24. Se Galileu aplicou esta tese ao domínio natural, Descartes vai estendê-la a todos os domínios (física, biologia, moral), a matemática tornado-se assim omodelo do método universal do conhecimento científico (“mathesis universalis”).
25. Com efeito, a ordem metódica da razão é dirigida portrês regras e assemelha-se ao procedimento da matemática e não da lógica formal-verbal antiga: a razão vai
(1) das ideias mais elementares, portanto evidentes, na sua simplicidade e distinção (obtidas pela regra da análise),
(2) até às mais complexas ou ideias compostas das mais simples (regra da síntese) e, portanto, também compreensíveis e evidentes,
(3) aplicando por fim a regra da enumeração tal que fique assegurado de nada omitir.
26. O método e a sua unidade é a actividade da razão pura do sujeito: o seu modelo não é a lógica das classes, com a sua compreensão ou encaixes de propriedades qualitativas numa extensão hierárquica que corresponderia à heterogeneidade substancial do universo; o seu modelo é a matemática (álgebra e geometria analítica), ciência das relações na homogeneidade substancial do mundo, na sua extensão infinita sobre a qual se desenham figuras e movimentos. O método universal, concebido em termos do que Descartes considerou ser o do raciocínio matemático, consiste
(1) na “intuição” (análise) – representação mental de ideias simples (elementares, irredutíveis): extensão, duração, número, linha, movimento, igualdade, …;
(2) na “dedução” (síntese) – «Operação pela qual entendemos tudo o que se conclui necessariamente de outras coisas conhecidas com total certeza.» Consiste em relações entre ideias simples, relações compostas destas e que constituem as próprias ideias complexas: triângulo, certa equação algébrica, certa descrição matemática duma figura geométrica, formas de acção e reacção entre figuras em movimento, etc..
27. Concluindo, escreve Georges Polizer, «Ele negou o método de autoridade e a escolástica no seu conjunto, proclamando em face deles os direitos do espírito crítico e da razão, procurando tirar das ciências mais evoluídas, como as matemáticas, um método universal.» (POLITZER, Georges, A Filosofia e os Mitos).
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