Saramago em Pessoa

«Diz-me muito mal de Deus.
Diz-me que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
“Se é que as criou, do que duvido” -.»

(Fernando Pessoa (het. Alberto Caeiro), Poesia, VIII).
Portugal ainda é o reino cadaveroso de que falava o influente filósofo português António Sérgio em meados do século XX? Talvez não tanto, porque temos actualmente a liberdade de dizer os maiores disparates, embora, por auto-censura conveniente (podemos perder um empregou ou não obter um melhor), nem sempre as coisas mais inteligentes e autênticas.
Todos, pais e filhos, jovens e adultos, idosos ressentidos pelo mal que lhes fizeram e pela má-consciência do que deveriam ter feito mas tiveram medo de o fazer, adolescentes malcriados, aparentemente rebeldes na farpela e no trato, conformistas inconscientes no pensamento e na acção, avatares e prolongamento dos progenitores, conspiram neste país, desde que ódios vencedores e frustrações amesquinhantes se destilaram como subproduto do relativo fracasso do vinte e cinco de Abril em Novembro de setenta cinco, no silenciamento dos problemas fundamentais e polémicos da vida, da sociedade, do universo. A filosofia deixou de novo de sair à rua e recolheu-se nas mansardas escusas das dúvidas incómodas, que assomam à consciência, mas são logo caladas, nos momentos em que a realidade castiga as nossas certezas mais incautas. Reduz-se agora a uma lógica, a uma estratégia discursante, uma das que o Estado usa para se apoderar da realidade através do discurso.
E, no entanto, como por certos momentos de força incontida dessa mesma realidade, não podemos negar que as ideias preguiçosas da Vida e seu carácter sagrado, da harmonia económico-social como fim alcançado da História, da Natureza conveniente das coisas, já foram várias vezes incomodadas pelas urgências concretas do aborto e da eutanásia, do suposto fracasso dos automatismos económicos e financeiros, das descobertas dos ancestrais pitecantropos da Lucy, que vão recuando para o fundo peturbador da Natureza a origem do ser humano.
Instalou-se um pacto. É o pacto tácito dos que assumem como facto positivo, enquistado cronicamente na vida, a existência de um cosmos humano cujo todo é ainda o definido por Adam Smith no século XVIII nos alvores do capitalismo industrial (filosoficamente legitimado por Hegel), fazendo-nos crer ser o epítome da modernidade e do pós dela: o mundo como produção, consumo e redistribuição harmoniosos, o do eterno e satisfeito equilíbrio entre necessidades, trabalho e satisfação daquelas pela quantidade de participação neste. É o pacto dos que gostariam de calar tudo o que incomodar tão perfeito relógio, a que apenas basta de vez em quando algum acerto na maquinaria dos ponteiros. Por exemplo, Saramago.
É certo que nem só de pão vive o homem e também há necessidade, ou pelo menos uma mania estranha, de valores, quiçá de fé ou crenças. Mas nem todos os valores são os mesmos, nem toda a convicção tem igual valor de mercado. E talvez suceda até que o mercado não consiga determinar ainda um preço de venda para cada um. Hellás, o mundo não é tão harmonioso como o sonhado por Smith. O balanço do deve e o haver não chega a tudo, à subjectividade subversiva e ilógica dos prazeres, à imaginação criativa de alguns artistas, à fé ou ao ateísmo não domáveis por completo pela teoria institucional, pela razão santificada pelo Estado. E ainda bem.
Mas inclusive nisto o mercado impõe a sua lógica. É preciso vender as ideias, as obras de arte, a fé. É preciso comer. Cristo fez a sua ceia. Buda descobriu que devia propagar a sua religião entre discípulos antes da suprema libertação de todas as necessidades, entre elas, a primeira, a da fome. Não pretenderam ser egoístas guardando a revelação para eles.
Saramago também decidiu – à imagem de Cristo e de Buda – publicitar a sua ideia. Para continuar famoso. Tal como um outro que tal chamado de Rushdie satirizou satanicamente o Alcorão, para se tornar famoso. Pecado capital, sem dúvida, mas em que não me meto. Sorte maior todavia a de Saramago, que tem entre ele e a Igreja uma luta republicana de séculos que expulsou a Inquisição dos manuais dos bons costumes ocidentais. E, sendo assim, que lhe podem apoucar as dores de quem se insurge contra o monopólio da publicidade das coisas da religião? É aliás bom sinal que as suas ideias façam sair para fora os verdadeiros pensamentos e o carácter dos seus detratores. É bom sinal conhecer as pessoas, não como fazem que são mas como são quando não pensam duas vezes o que fazem.
Lutero disse que a Bíblia deve ser lida, Strauss que deve ser interpretada. Biron imaginou um Caim herói duma liberdade solitária e romântica. Thomas Mann interrogou-se sobre a bondade, a legitimidade e o sentido da “má-fé” de Deus no trato com os homens e John Steinbeck equacionou o “desenvolvimento” económico, a transformação tecnológica e económica das condições de vida do homem, com a realização pessoal, a criatividade, a solidão, a rebeldia contra as tradições fazendo uma analogia contemporânea com o resultado do conhecimento do bem e do mal pelos progenitores da Humanidade, com o seu filho Caim agricultor em conflito com Abel pastor, que se recusa a reconhecer a verdade do pecado do pai, a não ser o ciúme de suspeitar de que não tem a preferência, culpada mas cúmplice, de seu progenitor embora o fosse do pai de seu pai. Mas Caim é mais humano que Abel, em todos os sentidos. É o autêntico pai do progresso e da civilização. Não admira que grandes escritores lhe tivessem dado a preferência, tal como a deram a Prometeu.
Saramago propõe-se a uma reapropriação genial do texto. Saramago comete o pecado de querer voltar à palavra prístina da Bíblia, à palavra inocente que deve ser respeitada num livro sagrado, para que seja tido como sagrado. Ele quer recomeçar tudo, todavia como quem sabe que essa leitura nua nunca poderá ser a duma nudez original mas aquela que arranca as vestes para descobrir com falso espanto (fingimento pessoano, fingindo que finge o espanto que deveras tem na decisão desse olhar) o confronto do texto com quem o olha a partir da realidade. Como o Jesus de Alberto Caeiro, vê Deus com uma criatura de más maneiras, de pouca confiança e com estranhas intenções. Pelo menos, como um velho rabujento e incompreensível.
Saramago lê o texto no plano da vida quotidiana e efectiva dos homens. E, ao colocá-lo no mesmo plano, ilumina o carácter absurdo do texto. E põe a pergunta de quem apenas leu a palavra de Deus sem intermédios, sem exegetas, sem hermenêutica, como um analfabeto dos enviados do Além: como pode ser bondoso aquele que faz depender a confiança mútua de aceitar o sacrifício do próprio filho?; como pode o conhecimento do bem e do mal ser a própria fonte do mal?; como pode ser bom quem impõe uma obediência cega?; como se pode viver sem trabalhar?
E então outra pergunta surge. Se o Livro é sagrado, como pode ser absurdo? Terá pois de haver ou uma instância suprema que nos obrigue a ler à sua maneira o Livro como uma metáfora – mas quem se pode fazer passar sem sombra de dúvida por tal instância ou pelo arauto da mesma? – ou, em alternativa, é o homem que faz falar um deus do qual só se pode entender coisa com coisa através da invenção dum leitor absoluto de metáforas e alegorias, dogmático e canónico. Um burocrata da poesia transformada em Realidade. Deus terá criado o mundo através duma figura de retórica!
Estamos a falar, entendido bem, de uma real alternativa? Não será impossível que a palavra de Deus se possa anunciar e enunciar por si mesma? Deus só se pode conhecer e entender por uma interpretação. Qual a mais correcta? Quem é Deus? Deus não será uma exegese do homem? O homem não será o escritor de Deus? Deus não será um personagem – maior concerteza – do romance do Homem?
Para Saramago, tal como Pessoa criou os seus heterónimos para ser tudo aquilo que sonhava, tudo o que era impotente para ser, o Homem criou Deus à sua imagem como metáfora da realidade contraditória que é: ser que se oprime a si próprio e que luta pela sua libertação.
Anúncios