Pussy Riot – Lembram-se?


Se a provocação pela provocação é apenas exibicionismo, a provocação contestatária definida tem, por isso mesmo, um sentido e assume uma responsabilidade social. Não é por ser contestação que se deve gostar dela, mas por estar ao serviço de um objectivo que consideramos válido. E é claro que, se não gostamos, não temos o direito de prender os seus agentes, a menos que atentem, não contra as crenças dos outros, mas contra o modo de as viver, se este, por sua vez, não atentar contra o modo de viver de quem lhe é alheio. É legítimo fazer graça à custa de Deus mas não é legítimo ocupar o espaço dos rituais.

No caso das “Pussy”, os conteúdos imediatos que veiculam as suas representações cénicas (“perfomances”) são os do desprezo pelos lugares de culto, a denúncia da cumplicidade entre Igreja e Estado – tendo à cabeça Putin -, mas através de um expediente que abusa, não apenas do palco dos sacerdotes mas sobretudo de um lugar sagrado para os fiéis, e a recusa de “qualquer tipo” de tradição cultural na prática da sexualidade.
Também é preciso situar esta acção no percurso da sua “obra”. Uma delas, em prol da liberdade sexual, fez-se fotografar num supermercado a enfiar um frango na vagina. Uma outra, grávida na altura, foi protagonista (se se pode dizer assim) de um famoso filme pornográfico (ver youtube), rodado num museu russo e dirigido pelo grupo Voina (Guerra), também “rebelde”, numa acção, disseram, destinada à emancipação das mulheres. É coerente: invadem uma igreja para para libertarem os seus fiéis da ligação com o Estado; rodam um filme pornográfico para libertarem as mulheres do seu pudor e do seu corpo.
Mas, ao contrário do que parece resultar da percepção imediata das suas actuações, não há nada de progressista ou de libertador nelas. Em vez de apelarem a uma sexualidade mais livre e, portanto, mais humanizadora, é à grosseria e à bestialidade que apelam. Em vez de despertarem as pessoas para a consciência da alienação religiosa, limitam-se a invadir um espaço religioso, atentando contra o direito dos fiéis fazerem dele o uso que quiserem. Em vez de conseguirem levantar as pessoas contra a arbitrariedade do regime e contra a sua relação íntima com a Igreja, provocam a associação entre a barbaridade e os contestatários de Putin.
Se formos mais a fundo ainda, descobrimos uma estranha cumplicidade entre os políticos estado-unidenses, que juraram pela Bíblia e têm Deus “nosso Senhor” sempre na boca, e as “Pussy”, que ocupam a “casa do Senhor”, entre a Amnistia Internacional e o Human Rights Watch, OGN’s de origem estado-unidense, ciosas da liberdade de culto religioso e de expressão, sob o lema (burguês e individualista) de que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro, e um grupo de “punk” que agiu contra a autonomia e independência do uso de um espaço de culto pelos fiéis para se fazerem prender com objectivos de publicidade e de propaganda.
Note-se que estas OGN’s substituíram nos últimos anos a luta contra a prisão política arbitrária, à luz da liberdade de expressão e do direito internacional, pelo objectivo mais ambicioso de criticar, desestabilizar e derrubar regimes incómodos para o Estado a que estão ligadas.
As armas ideológicas que sustentam – a par das económicas e militares – a hegemonia imperialista estado-unidense desde há muito que incluem palavras valiosas como “liberdade”, “democracia” e “direitos humanos”. Seja qual for a verdadeira intenção das “Pussy”, que não são nenhumas crianças, nem sequer adolescentes, estão a servir objectivamente, não a emancipação do povo russo mas a desestabilização de uma nação que decidiu, com Putin, seja quais forem os seus motivos pessoais e de classe, e os seus defeitos, que são muitos, não se dobrar, pelo menos completamente, aos interesses dos Estados-Unidos.
Augusto M. Seabra escreveu no Público (24-08-2121) um artigo onde se mostra solidário com as Pussy, tal como o já fizeram Madona, que fez uma declaração política na Rússia, como se fosse a sua casa, à boa maneira dos americanos, e o oligarca (e ladrão, com certeza) russo Khodorkovski.
Aqui vai um estrato do artigo, com os meus parabéns pela sofisticada falta de contextualização do assunto e por me ter informado que os processos estalinistas ainda vigoram, mesmo contra oligarcas ladrões e espiões dissidentes.
Um caso recente em especial notório foi agora o das três punk feministas russas Pussy Riot, Nadeja Tolokonnikova, Maria Alekhina e Ekaterina Salutsevich, que ao fim de um julgamento de tal modo fantoche, com tão evidentes arbitrariedades, que trouxe à memória os sinistros “processos de Moscovo” do estalinismo, foram sentenciadas a dois anos de detenção por “vandalismo suscitado por ódio religioso” pela sua performance, a 21 de Fevereiro na Catedral de Cristo Salvador, para denunciar a estrita aliança entre o poder político e a igreja ortodoxa russa, entre Vladimir Putin e o Patriarca Kiril – “Virgem Maria, mãe de Deus, corre com Putin” e “O patriarca Kiril crê em Putin, seria melhor, estupor, se acreditasse em Deus”, entoaram.

Ao fim de 12 anos de poder, como presidente e depois primeiro-ministro, “prorrogáveis” agora por outros 12, seis do novo mandato presidencial e outros tantos em caso de uma possível reeleição, Putin vem consolidando uma autocracia que só tem paralelo na de Alexander Lukashenko na vizinha Bielorússia.
Entre muitos outros casos, permanecem misteriosas as circunstâncias das mortes da jornalista Anna Politkovskaia e do dissidente Alexander Litvinenko, envenenado em Londres, e o oligarca Mikhaïl Khodorkovski encontra-se num campo de detenção, de onde aliás agora conseguiu fazer sair um texto de apoio às Pussy Riot.
Convém esclarecer que as Pussy Riot não são apenas as três ora condenadas, mas um colectivo punk feminista, inspirado no movimente americano dos anos 90 Riot grrrl, e que algumas delas estão por sua vez ligadas a um mais vasto grupo artístico de activistas, os Voïna (Guerra), constituído em 2008 e hoje dividido em duas facções, a de Moscovo e a de São Petersburgo.
Entre as mais espectaculares acções dos Voïna contam-seFuck for their Puppy Bear!, em 2008, em protesto contra a troca de cadeiras entre Dmitri Medvedev e Putin, com cinco casais, entre os quais Piotr Verzilov e a agora condenada Nadejda Tolokonnikova, em sexo em público no Museu de Biologia de Moscovo, ou o gigantesco falo de 65 metros erigido frente à sede do Serviço Federal de Segurança – herdeiro do KGB – em São Petersburgo.
(Uma obra-de-arte contestatária do grupo Voina)

Mas, para baralhar a cabeça dos adeptos da oposição Ocidente – Rússia, estão aí as Pussy Riot 2.0, como se lê num artigo da RT:

Pussy Riot 2.0: German Catholic Church presses charge copycats (PHOTO, VIDEO)

Published: 24 August, 2012, 14:02
Edited: 24 August, 2012, 18:00
Three years in prison have become a closer prospect for some German followers of Russian punk band Pussy Riot. The Catholic Church has pressed charges against Cologne Cathedral intruders, who now face longer prison terms than their heroes.
The three protesters have been charged with disturbing a religious service which, according to German law, could mean up to three years in jail.
“The right to demonstration cannot be set above the right to religious freedom and the religious feelings of the congregation,” Cologne Cathedral’s dean told the Frankfurter Rundschau newspaper.
Three women from Pussy Riot received a two-year prison sentence for hooliganism over their controversial performance in Russia’s central Cathedral of Jesus Christ the Savior.
“The peace of Cologne Cathedral was disturbed – we can’t and won’t accept this,” said Dean Robert Kleine to the newspaper.
On August 20, three Germans – two men, aged 23 and 25, and a 20-year-old woman – stormed the cathedral in the city of Cologne to stage a performance inside the prayer hall similar to the one by Pussy Riot.
They were dressed Pussy Riot-style, with colored balaclavas covering their heads.
The group was shouting slogans, distributing flyers and singing. They had brought a banner demanding “Free Pussy Riot and all prisoners”.
The show by three Cologne protesters lasted for less than a minute before cathedral wardens dragged them outside.
Several other Pussy Riot protests were registered across Germany on August 20, the day the verdict in the Pussy Riot case was announced.
The bishop of Cologne Cathedral, Heiner Koch, who witnessed the assault on his domain, promised later to include the demonstrators’ cause, Pussy Riot and the people of Russia in his service prayer.
The Cologne Pussy Riot followers’ case clearly demonstrates the truth of the adage that “one shall not make for himself an idol” – at least without reading the criminal code first.

Nenhuma acção humana pode ser avaliada ‘a priori’, isto é, independentemente do mundo em que se realiza, como se fosse dotada de uma qualquer virtude em si e por si mesma: o seu valor depende das circunstâncias, quer dizer, do momento e do contexto, assim como dos fins e das consequências, dos projectos e dos resultados.
Por um lado, contra qualquer forma de essencialismo, nenhum facto no qual intervém o ser humano em sociedade é auto-subsistente, pois a realidade e a sua verdade são o todo; por outro, todos os factos e o seu contexto têm a determinação para o homem dos valores que lhes atribui, cuja verdade, de novo, depende da História que os indivíduos criam por si e para si mesmos em conjunto.
É por esta razão global que não se podem equivaler a “performance” das Pussy Riot na Rússia e, por exemplo, no longínquo ano de 1967, a acção espectacular dos Provo contra a cerimónia de casamento da princesa Beatrix em Amerterdão na Holanda.
Quando os Provo lançaram bombas de mau cheiro na Ouderkirk onde a princesa se casou e atiraram uma galinha viva para a carruagem onde ela seguia em cortejo, podemos ver nisso, numa primeira reacção, um acto aparentemente grosseiro. Todavia, numa análise mais profunda, ele nada teve nem de gratuito nem da violência pura de um desejo arbitrário e egocêntrico ou fechado numa dinâmica de grupo à qual se resumiria o próprio sentido do acto.

Ao serem libertadas, uma das Pussy Riots (Motim das Conas), numa conferência de imprensa, disse esta coisa muito reveladora de quem as incentiva: “Questionadas sobre quem poderia ocupar o lugar de Putin à frente do Governo russo, Nadia Tolokonnikova disse que não se importaria que fosse Mikhail Borisovitch Khodorkovski, o antigo homem forte da petrolífera Yukos e opositor político do Presidente, que passou dez anos na prisão por fraude e evasão fiscal e também recebeu um indulto “por razões humanitárias” na mesma semana.” (P 3, publico.online) 

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