O Império Estado-Unidense Explicado às Crianças

Os estado-unidenses consomem, per capita, duas vezes mais energia do que os europeus, quatro vezes mais do que os chineses e oito vezes mais do que os indianos. Para manterem o seu modo de vida, que muitos deles consideram o melhor (não há maior sentimento de liberdade do que viajar pelas suas imensas auto-estradas, dizem alguns deles, como se tivessem o direito aos bens do mundo inteiro), a energia é estratégica. Daí que as grandes bacias mediterrânea oriental, do Golfo Pérsico e do Mar Cáspio sejam muito atraentes para a política diplomática e militar estado-unidense. Ao mesmo tempo – com a ajuda de outros países interessados como o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Itália -, pretendem através do domínio político e militar dessas regiões limitar a influência nelas de outras potências como a China e aRussia. Daí, a Jugoslávia, as repúblicas muçulmanas da Russia, a Líbia, a Síria, mais tarde o Irão.
Em suma, os Estados-Unidos fazem pela vida como antes fazia o Império Romano. Este alargava as fronteiras para obter escravos, a sua grande mão-de-obra, para se assenhorear de territórios agrícolas, para ocupar zonas de extracção de minério de ferro, ouro e prata e para se assegurar contra ameaças estrangeiras, ao mesmo tempo que, com tudo isso, reforçava a coesão interna. Com a exibição do seu poder militar, com a sua tecnologia avançada, com a sua arquitectura, os seus templos religiosos magníficos, conseguiam fazer crer, tanto aos seus como aos estrangeiros (os bárbaros), na sua superioridade a todos os níveis: tecnológico, urbanístico, higiénico, legal, político, moral, artístico.
Os Estados Unidos, com o mesmo avanço militar, com a sua posição de vanguarda em áreas cruciais da tecnologia, com o controlo dos meios de comunicação informativo, documental, cinematográfico e da música de massas, com a sua poderosa e sofisticada máquina de sedução e a sorte de ter gente muito bonita, dinâmica e expressiva, com o inglês como língua universal, tal como era o latim para as regiões dominadas porRoma, não têm grande dificuldade em fazer crer ao mundo que são o centro civilizacional do planeta e o farol dos povos. Os jovens, sobretudo, são “americanos” por auto-adopção. “Pão e circo” – lema tanto romano quanto norte-americano.

Os estado-unidenses têm, aliás, uma vantagem sobre Roma: o facto de o capitalismo ter resultado de uma então burguesia revolucionária que implementou, contra as ordens medievais, a igualdade política entre os cidadãos e os direitos formais à vida e à liberdade pessoal, substituindo as diferenças de nascimento ou de natureza pelas supostas desigualdades económicas do mérito, faz dos Estados Unidos um regime atraente para muitos povos submetidos a sistemas semi-capitalistas dominados por tiranias e oligarquias opressivas, muitas vezes apoiadas, enquanto interessam ou interessavam, pelo próprio colosso Norte-Americano.

O argumento dos Direitos Humanos é mel, quantas vezes envenenado, para muitos jovens dos países árabes, africanos, latino-americanos e, coisa curiosa, dos países europeus, sejam ricos sejam pobres. E estes acabam por não perceber que aos Estados-Unidos lhes interessa muito mais o petróleo, o gás natural, o jogo estratégico contra as outras potências do que os direitos do homem, tantas vezes desprezado ou cinicamente manipulado por eles, e a democracia, com a grande virtude da separação dos poderes e e direito à escolha, de quatro em quatro anos, dos oligarcas que “queremos” que mandem em nós.
Mas, oh o vestuário criativo, oh os jovens informáticos, oh esses que enriquecem num dia, oh a ideia fixe das redes sociais, oh as tribos rebeldes juvenis, oh os ídolos da música e oh as histórias fantasistas e excitantes de Hollyoowd, oh os músicos rock, oh os vídeo-discos, oh as auto-estradas intermináveis, oh as mansões com piscina, oh o poder dizer o que se pensa quando estão todos de acordo comigo! A felicidade é americana. O sentido da vida é americano. O sexo é americano. A música é americana. A pizza é americana.
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