Luisa Bonesio – Paisagismo e Anti-Humanismo

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Luisa Bonesio, no capítulo “Interpretare i luoghi” do seu livroGeografia del Paesaggio (2001), escreve (p. 472) que “Os lugares são o rosto do nosso habitar sore a terra: o do passado, aí onde se possa ter sobrevivido ou se mantenha vivo; da ausência ou do retirar-se humano; ou marca presente do estilo cultural. Por isso, ler fisionomicamente a paisagem é cumprir uma viagem simultânea nas várias formas de actuação e de significação da cultura em âmbito natural ou histórico. Como uma espécie de sismografia, os lugares registam, muitas vezes de forma indelével, a amplitude e a profundidade da intervenção humana.”
Regista-se, com efeito, neste parágrafo escrito por Luisa Bonesio, a ocorrência de dois termos que designam, sob diferentes sentidos, a acção humana: “actuação”, precisamente, e “intervenção”.
Por este motivo, Luisa Bonesio declara ainda mais adiante, no mesmo parágrafo, que a via de acesso privilegiada à ontologia da paisagem não reside no sentimento, na sensação, na emoção (p. 472-473), embora a percepção estética da paisagem possa, com proveito, ser pensada com recurso à tese kantiana da “procura de uma verdade singularque não renuncie ao seu valor universal”, ou seja, a paisagem deve ser pensada como o lugar da vida do Homem no qual se opera a síntese do singular e do universal, o lugar no qual não é possível opor a presença imediata do ser na sua singularidade e a razão, com as suas pretensões supra-sensíveis. Não há ciência senão do universal, escrevia Aristóteles, e esse foi durante milhares de anos o modelo científico dominante.
 Ora, no primeiro parágrafo deste capítulo, Luisa Bonesio manifesta um entendimento da relação entre Homem e Natureza que não pode enquadrar, por assim dizer, a paisagem como resultado tanto ontológico como estético de uma actividade imanente. A autora, em várias passagens, como a que vamos citar, afirma a necessidade de uma iluminação transcendente, mesmo sagrada, para guiar os caminhos do Homem quando ele desbrava a Natureza. É que esse desbravar torna-se ele próprio um acto de selvajaria se não tiver por diante tal luminária.
Interroga-se, com efeito, a autora: (p. 465) Não parecerá o tema da paisagem ser nos nossos tempos um tema menor “Um pouco como, em outro âmbito, aconteceu com a questão do divino e da teologia?” No parágrafo seguinte, continua o seu questionar, perguntando se (p. 466) “a última modernidade […] está privada de alguma chave essencial, ou é talvez demasiado surda para perceber?”.
A chave de que fala Bonesio é a resposta relativamente à co-presença de três temas, que considera os mais arriscados ou incómodos para a acomodação das pessoas à banalidade produtivista e consumista do quotidiano: o divino, o sofrimento, a beleza, a natureza. Estes temas não são heterogéneos mas interpelam-se entre si e interpelam o homem, que os ignora precisamente por questionarem no seu fundo uma existência de estilo operatório e funcional, que desatende, por isso, o fundamento e o sentido autêntico da própria vida.
Por este motivo, Luisa Bonesio interroga-se (p. 466), comJean-Luc Nancy, e de uma maneira assaz cáustica e, ao meu ver, anti-humanista, “se a um “homem” que não comparece mais perante Deus, que não reconhece mais o semblante divino, convirá ainda o nome de homem, assim como à sua sociedade o nome de comunidade. Não mais confrontado com o divino, o homem é presa da sua hybris, do crer-se medida das coisas. Enquanto tal não pode sequer reconhecer um limite à sua própria acção sobre a natureza; não pode portanto reconhecer a natureza, conhecer-lhe verdadeiramente a beleza. Na apropriação ilimitada de tudo, a beleza estrangeira da natureza perde-se na imbecilidade com a qual o homem viola sistematicamente limites e lugares, minando inexoravelmente a sua própria possibilidade de existência.”
Lidas e destacadas estas passagens do artigo de Luisa Bonesio em apreciação, ficamos com uma ideia dos princípios que ela defende e pelos quais faz a avaliação da relação do Homem com a Natureza. O seu manifesto anti-humanismo, expresso em frases acusatórias, pede uma resposta polémica rival.
Parece que a razão humana é encurtada por Luisa Bonesio na sua autonomia e capacidade de auto-regulação e de conhecimento da verdade e dos valores que devem contar, precisando, portanto, da iluminação e da vigilância divina para regular as suas ideias e a sua actividade. A mesma autora também parece fazer da Natureza, não o meio de desenvolvimento do Homem, para o qual se deve dispor, ao mesmo tempo que, por idêntico motivo, deve ser protegida, não apenas em parques fechados à actividade humana para defesa da sua fisionomia prístina, mas por ser dotada de uma riqueza inestimável para gozo e equilíbrio humanos, dado que este é um ser que vem da Natureza e dela não pode abdicar, como em geral, nos próprios lugares onde aquela se efectua, para bem do Homem, mas um território sagrado posto pelo bom Deus e ameaçado pelo Homem.
Acossado por Deus e pela Natureza, o Homem, sujeito do mal radical – bem pior do que o “mal” dualista de Kant –, nada mais pode fazer do que se penitenciar e voltar – fantasiosamente e sem o romantismo revolucionário deRousseau – um estado selvagem onde as malfeitorias da Civilização tenham sido arredadas. O diagnóstico é assustador, e com efeito só o pode ser, mas a solução não está à vista das capacidades humanas intrínsecas. Ora, a autora desconhece que foram as religiões do Livro, entre as quais o Cristianismo, que transformaram em dogma a crença na dualidade do Ser: o Espírito é santo e a Natureza é o mal.
Espinosa, Kant e Feuerbach fazem parte de um património de emancipação da Humanidade que Luisa Bonesio põe de lado. O aforismo humanista de Protágoras “O homem é a medida de todas as coisas”, o imperativo kantiano “Ousa pensar por ti próprio”, a descoberta de Feuerbach segundo a qual a religião nada mais faz do que projectar a essência humana numa personificação sobrenatural, o próprio projecto deHusserl, prosseguido e aprofundado por Merleau-Ponty, de fazer redescobrir o Mundo da Vida nessa unidade indissolúvel do Homem com a Natureza, são preteridos pela autora, que, para acautelar um mundo melhor, prefere o regresso ao passado no qual a impotência partilhava os seus medos entre as sombras da floresta e o castigo divino.
Devemos dizer, contra a opinião de Luisa Bonesio, que a beleza, a bondade e a verdade não são impostos ao Homem como a mão de um sacerdote sobre a cabeça do fiel. O estranhamento consiste numa falta na apropriação pelo Homem da coisa que lhe importa, exterior ou mesmo exterior. A beleza é uma criação humana: não há uma beleza eminente que o Homem teria que respeitar como se fosse um ídolo ubíquo e sagrado.
É preciso pensar o Homem como parte activa da Natureza e não como coisas que se opõem reciprocamente. E é por ele fazer parte da Natureza que transforma que a paisagem é ao mesmo tempo um facto concreto e uma percepção cultivada.
A liberdade do Homem é a sua capacidade racional de agir de acordo com as suas necessidades. Uma necessidade fundamental é a de domínio, outra a de ordem e de proporção, outra ainda é a de conhecimento. Estes temas estão claramente interligados. A incomensurabilidade da Natureza prova isso mesmo – por contraste – ao despertar-lhe um sentimento de admiração e de transcendência face ao poder humano.
A beleza da Natureza selvagem tem a ver com esse sentimento de uma realidade que nos supera em termos de poder e de conhecimento. Mesmo que nos sintamos confortáveis com o controlo das coisas, precisamos sempre (somos de resto obrigados) de nos por à prova, de nos testar no selvagem, até porque não deixamos de ter uma dimensão animal.
A beleza não pode ser vista para além desta condição humana.
A beleza é a forma-sentimento da percepção, à vez dotada de sentido e de abertura, construída entre o controlo ou a ordem e a diferença ou a oposição dinâmica entre o Homem e os objectos. É um agradável frenesim, uma excitação, um entusiasmo, ou um espanto, um estado de encantamento, ou de atracção temerosa pelas magnificentes figuras da Natureza. A beleza não se reduz ao sentimento duma forma decorativa, que consiste no agradável. Vai para além deste. É uma vivificação, como diria Feuerbach, dos nossos sentidos universais.
Mas para Luisa Bonesio, a beleza é uma “qualidade ontológica” (p. 470).
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