I’m Killing Portuguese Language

Machado de Assis Exhibition @ The Portuguese L...

Machado de Assis Exhibition @ The Portuguese Language Museum (Photo credit: crypto)
Não resisto a citar parte de um artigo publicado no Brasil, cuja língua está a ser destroçada pela influência inglesa, nomeadamente através do desaparecimento de pronomes relativos e do uso, que já se tornou um estilo dos falantes do “brasileiro”, do gerúndio: “Eu estou matando língua portuguesa (I’m killing portuguese language”)”. Não é difícil transpor esta situação para o português de Portugal. Se a situação ainda não é tão grave no nosso país, é provável que mais dia menos dia nos tornemos ainda melhores macacos-de-imitação do que os brasileiros. E o trágico é que o mundo inteiro está a ser invadido por esta tendência e, helás, também a França. Trágico porque não parece haver solução: a direita capitalista e federalista aspira por uma língua franca mundial, língua materna, de biberão, do comércio e dos negócios, e que deverá ser tendencialmente a língua dos bébés; a esquerda colorida, que é a favor da independência nacional mas contra a saída do euro, está tolhida por uma ideia errada de internacionalismo, que confunde com cosmopolitismo, com o desaparecimento das nações e se esquece que internacionalismo é solidariedade pela paz e pelo desenvolvimento, pela partilha de saberes e dos valores humanos universais mas não é idêntico ao capital que não tem pátria nem despreza, antes valoriza as diferenças que enriquecem o mundo na sua variedade. Em suma, todos parecem defender a bio-diversidade mas não a uniformidade cultural.
“São inúmeras as palavras que vemos diariamente em jornais, revistas, internet, cartazes ou que ouvimos na televisão. Palavras como mix, em vez de mistura ou mescla. Trip, em vez de viagem. Cool, em vez de frio. Light, em vez de leve. Sales, em vez de promoção. Off, em vez de desconto. Outdoor, em vez de cartaz.  Delivery, em vez de entrega. Fashion, em vez de moda. E assim por diante. É tão cretino esse afã de mostrar conhecimento de inglês que acaba distorcendo a gramática portuguesa. Os pronomes relativos são degolados. Por exemplo: a loja que eu compro, em lugar de a loja onde eu compro. As preposições então são enviadas às câmaras de gás. Exemplos. Voe TAM, em lugar de voe pela TAM – puro anglicismo. Assisti um filme, em lugar de assisti a um filme. O verbo captar aparentemente caiu em desuso. Já não se diz captar o sentido, a imagem, mas capturar o sentido, a imagem – puro anglicismo. Já não se diz ele se suicidou, mas ele cometeu suicídio – puro anglicismo. Isso sem falar do abuso do gerúndio: amanhã estarei enviando – puro anglicismo. Em breve, as subordinadas vão desaparecer porque é mais prático (o inglês, sem dúvida, é uma língua prática), e vamos passar a dizer: a mulher eu amo em vez de a mulher que eu amo. Em suma, tudo isso, além de deplorável, é ridículo. Grotesco. Caricatural. E, em última análise, vulgar. Já que toda imitação é vulgar. Tudo o que não seja autêntico é vulgar. Por mais fino que seja.
Mas existe também um aspecto perverso nessa invasão da língua portuguesa do Brasil pela língua inglesa norte-americana. É o lado social. Ou político – já que tudo é político.  O jornal “O Estado do São Paulo” vive publicando, na primeira página do Caderno 2, um anúncio do Haras Larissa que diz:Authenticsimpleelegant and exclusive. Além de publicado em inglês, repare no adjetivo exclusive, altamente significativo. Outro anúncio no mesmo jornal: Fashion Day no Shopping Center. Note que nesta frase de cinco palavras há quatro em inglês e uma só em português. Muito bem. O Cambuí, o bairro mais elegante deCampinas, parece uma cidade norte-americana. Repleta de day hospital, fitness, Sales, off, english school (com os dizeres suplementares de kids, teens, adults), etc… Pode-se dizer, parodiando o título da peça de Nelson Rodrigues, que o Cambuí é bonitinho, mas ordinário. Gente, onde é que nós estamos? O brasileiro não é obrigado a falar inglês. Nem sequer a conhecer todos esses estrangeirismos. Aliás, um morador da periferia se sente, não só deslocado, mas excluído do Cambuí e dos shoppings. E daí? – pode argumentar algum cínico – o Cambuí não é para morador da periferia. E chegamos aonde quero chegar. Há uma correlação entre a invasão do português pelo inglês norte-americano e a nossa desigualdade social, uma das piores do mundo. Talvez, já que somos dóceis lacaios do neoliberalismo, devêssemos propor que o Brasil adotasse o inglês como língua oficial. O MEC certamente aplaudiria a ideia.”
R.Roldan-Roldan é escritor
Anúncios